{"id":1518,"date":"2026-07-27T13:17:33","date_gmt":"2026-07-27T13:17:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cir-internacional.org\/pt\/?p=1518"},"modified":"2026-07-27T13:17:33","modified_gmt":"2026-07-27T13:17:33","slug":"o-silencio-como-politica-o-caso-levy-o-feminismo-e-a-questao-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cir-internacional.org\/pt\/o-silencio-como-politica-o-caso-levy-o-feminismo-e-a-questao-de-classe\/","title":{"rendered":"O sil\u00eancio como pol\u00edtica: o caso Levy, o feminismo e a quest\u00e3o de classe"},"content":{"rendered":"<p><em>Por: Mariana Romero e Ale Cuervo, GOI \u2013 Argentina<\/em><\/p>\n<p>Em junho deste ano, Cecilia Ce1\u00a0relatou ter sido v\u00edtima de viol\u00eancia psicol\u00f3gica e abuso emocional durante o relacionamento com Nacho Levy2. Ela descreveu padr\u00f5es de controle e de manipula\u00e7\u00e3o emocional, esclarecendo que n\u00e3o envolvia viol\u00eancia f\u00edsica, mas sim uma din\u00e2mica emocionalmente violenta. Ap\u00f3s a den\u00fancia, Levy foi afastado de suas fun\u00e7\u00f5es como apresentador do programa La Poderosa.<\/p>\n<p>A acusa\u00e7\u00e3o p\u00fablica de Cecilia Ce contra Nacho Levy e os depoimentos que come\u00e7aram a surgir ap\u00f3s sua exposi\u00e7\u00e3o reabriram uma discuss\u00e3o que vai muito al\u00e9m de seus protagonistas. O sentimento de \u201cj\u00e1 se sabia\u201d que se manifestou nas redes sociais e em diversas esferas obriga-nos a questionar n\u00e3o apenas as responsabilidades individuais, mas tamb\u00e9m as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e organizacionais que fazem do sil\u00eancio uma resposta quase natural.<\/p>\n<p>Este caso n\u00e3o \u00e9 um incidente isolado. \u00c9 a express\u00e3o de uma contradi\u00e7\u00e3o mais profunda que permeia grande parte das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais do nosso pa\u00eds. Nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, esses grupos incorporaram as principais reivindica\u00e7\u00f5es do movimento feminista: apoiaram a mobiliza\u00e7\u00e3o em massa do\u00a0Ni Una Menos\u00a0(Nem Uma a Menos), defenderam o direito ao aborto legal e promoveram pol\u00edticas e institui\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 igualdade de g\u00eanero. As conquistas democr\u00e1ticas alcan\u00e7adas por meio da luta foram reais e significativas.<\/p>\n<p>No entanto, sob uma perspectiva marxista, a contradi\u00e7\u00e3o reside no fato de que essas reivindica\u00e7\u00f5es e muitas dessas organiza\u00e7\u00f5es foram integradas a projetos governamentais que, por meio do Estado, preservaram as rela\u00e7\u00f5es sociais que reproduzem as diferentes formas de opress\u00e3o e sustentam a desigualdade entre homens e mulheres.<\/p>\n<p>Isso fica evidente quando observamos a discrep\u00e2ncia entre o discurso e a realidade. Apesar dos esfor\u00e7os para criar departamentos, protocolos e campanhas p\u00fablicas com foco em g\u00eanero, a viol\u00eancia de g\u00eanero e os feminic\u00eddios continuaram sendo uma realidade persistente em diversas partes do pa\u00eds. Muitas dessas iniciativas foram valiosas e ainda s\u00e3o necess\u00e1rias. Mas queremos aprofundar a quest\u00e3o subjacente: um problema estrutural que n\u00e3o pode ser revertido simplesmente pela cria\u00e7\u00e3o de ag\u00eancias estatais ou pela promulga\u00e7\u00e3o de leis.<\/p>\n<p><strong>O machismo que n\u00e3o pode ser nomeado<\/strong><\/p>\n<p>Dessa perspectiva, o problema n\u00e3o \u00e9 simplesmente a falta de vontade ou de consci\u00eancia de g\u00eanero. Trata-se de uma limita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais profunda. Quando a luta contra a opress\u00e3o das mulheres \u00e9 subordinada \u00e0 governan\u00e7a, \u00e0 administra\u00e7\u00e3o estatal ou \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de certas figuras ou estruturas de poder, acaba reproduzindo muitas das pr\u00f3prias l\u00f3gicas que alega combater.<\/p>\n<p>O caso Levy ilustra precisamente essa tens\u00e3o. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simplesmente por que uma mulher demora tanto para denunciar o abuso: a opress\u00e3o masculina tem dimens\u00f5es materiais e psicol\u00f3gicas que explicam por que as v\u00edtimas muitas vezes n\u00e3o conseguem se manifestar imediatamente. O problema central \u00e9 algo completamente diferente: que condi\u00e7\u00f5es as organiza\u00e7\u00f5es criam para que as mulheres possam denunciar o abuso sem se isolarem, serem revitimizadas ou enfrentarem custos pessoais insuport\u00e1veis?<\/p>\n<p>O apelo para \u201cesperar que a organiza\u00e7\u00e3o se pronuncie\u201d tamb\u00e9m merece uma an\u00e1lise cr\u00edtica. Uma organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode permanecer neutra em conflitos que envolvam suas pr\u00f3prias figuras-chave quando a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica, econ\u00f4mica ou simb\u00f3lica de um grupo depende de certos indiv\u00edduos, e o incentivo para preservar seu prest\u00edgio pode, em \u00faltima an\u00e1lise, superar a necessidade de esclarecer os fatos.<\/p>\n<p>Essa transmiss\u00e3o de machismo, que muitas vezes ocorre em diversas organiza\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m envolve organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, mesmo aquelas que se autodenominam revolucion\u00e1rias, em que j\u00e1 houve casos de prote\u00e7\u00e3o a l\u00edderes.<\/p>\n<p>Frequentemente, s\u00e3o aplicadas san\u00e7\u00f5es \u201cexemplares\u201d e at\u00e9 excessivas, embora geralmente contra membros de base ou contra quadros. Em contrapartida, l\u00edderes ou figuras centrais s\u00e3o protegidos.<\/p>\n<p>Quando essa figura \u00e9 central para a sobreviv\u00eancia pol\u00edtica e institucional da organiza\u00e7\u00e3o, o sil\u00eancio deixa de ser uma falha circunstancial e se torna uma necessidade para o seu funcionamento. Portanto, a quest\u00e3o crucial n\u00e3o \u00e9 se devemos ou n\u00e3o preservar uma organiza\u00e7\u00e3o, mas sim que tipo de organiza\u00e7\u00e3o ela \u00e9 e qual o seu prop\u00f3sito. Uma organiza\u00e7\u00e3o com genu\u00edna independ\u00eancia pol\u00edtica \u2014 que n\u00e3o dependa do Estado ou de uma figura de proa para sobreviver \u2014 tem os recursos para lidar com o machismo interno sem se desintegrar. Al\u00e9m disso, ela se fortalece ao faz\u00ea-lo, porque sua legitimidade n\u00e3o se baseia na imagem de seus l\u00edderes, mas em suas pr\u00e1ticas concretas e em seu programa. Uma organiza\u00e7\u00e3o dependente do Estado e dessa figura de proa, por outro lado, s\u00f3 pode silenciar o problema para sobreviver. O sil\u00eancio, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 um erro: \u00e9 uma resposta estruturalmente coerente, consistente com o tipo de estrutura que a organiza\u00e7\u00e3o representa.<\/p>\n<p><strong>A estrutura de poder se reproduz<\/strong><\/p>\n<p>Do nosso ponto de vista, o sexismo n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno \u00e0 parte da estrutura social. Para o debate, \u00e9 preciso distinguir dois n\u00edveis. Por um lado, h\u00e1 o sistema capitalista como um todo, que se beneficia do machismo, assim como de outras formas de opress\u00e3o, porque estas contribuem para a reprodu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, a divis\u00e3o da classe trabalhadora e a garantia do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado que sustenta a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 a organiza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica: quando depende do Estado, de seu financiamento e da visibilidade de seus l\u00edderes para sobreviver, ela reproduz internamente essa mesma l\u00f3gica estrutural. N\u00e3o se trata de uma \u201cfalta de consci\u00eancia\u201d ou de que seus membros sejam individualmente c\u00famplices do machismo; trata-se de que a estrutura da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o consegue gerar ferramentas, mecanismos ou um ambiente que desafie o sil\u00eancio que a cerca, porque faz\u00ea-lo colocaria em risco sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, subordinando-a a governos ou a acordos pol\u00edticos em prol do financiamento estatal.<\/p>\n<p><strong>A luta contra o machismo \u00e9 limitada<\/strong><\/p>\n<p>O feminismo, entendido como movimento pol\u00edtico, visa ampliar os direitos das mulheres dentro da ordem vigente, n\u00e3o transformar as rela\u00e7\u00f5es sociais que produzem a opress\u00e3o. Portanto, pode promover legisla\u00e7\u00e3o, criar institui\u00e7\u00f5es, participar e at\u00e9 mesmo liderar a luta por conquistas reais, mas \u00e9 estruturalmente incapaz de resolver aquilo que alega combater, pois isso exigiria questionar os fundamentos materiais que o tornam poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Somente a partir de uma perspectiva de classe, fundamentada na compreens\u00e3o de que as demandas democr\u00e1ticas s\u00f3 podem ser plenamente atendidas por meio da transforma\u00e7\u00e3o da ordem social que as nega, \u00e9 que a luta contra a opress\u00e3o das mulheres encontra um caminho genu\u00edno. O caso Levy n\u00e3o demonstra que essa luta seja um erro, nem que as mulheres devam abandonar suas reivindica\u00e7\u00f5es. Pelo contr\u00e1rio, exp\u00f5e as limita\u00e7\u00f5es de uma estrat\u00e9gia que subordina a luta contra a opress\u00e3o a projetos pol\u00edticos de concilia\u00e7\u00e3o de classes e a organiza\u00e7\u00f5es dependentes do Estado e de seus representantes.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a experi\u00eancia kirchnerista \u00e9 ilustrativa. Durante anos, o governo promoveu leis, criou minist\u00e9rios e secretarias para quest\u00f5es de g\u00eanero e se apresentou como l\u00edder na luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. No entanto, essas pol\u00edticas coexistiram com n\u00edveis persistentemente elevados de viol\u00eancia de g\u00eanero e de feminic\u00eddios. A contradi\u00e7\u00e3o entre discurso e realidade exp\u00f5e as limita\u00e7\u00f5es de uma estrat\u00e9gia que visa combater a opress\u00e3o das mulheres sem questionar as estruturas materiais e pol\u00edticas que a reproduzem. Leis e institui\u00e7\u00f5es podem representar conquistas significativas, mas se mostram insuficientes quando subordinadas a governos que administram a mesma ordem social que gera desigualdades e que, em muitas ocasi\u00f5es, acabam sendo c\u00famplices do silenciamento, da prote\u00e7\u00e3o de figuras de poder ou da omiss\u00e3o em fornecer respostas efetivas \u00e0s den\u00fancias.<\/p>\n<p>Os grupos alinhados a Milei e Macri tentam explorar epis\u00f3dios como o caso Levy para desacreditar toda a luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. Sua t\u00e1tica \u00e9 conhecida: ao destacar as reais contradi\u00e7\u00f5es entre o feminismo institucional e o progressismo, buscam desacreditar n\u00e3o apenas essa corrente pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m a luta das mulheres contra a opress\u00e3o, que \u00e9 algo completamente diferente. Uma coisa \u00e9 questionar as limita\u00e7\u00f5es estruturais do feminismo como projeto de concilia\u00e7\u00e3o de classes, apontar sua incapacidade de cumprir suas promessas e denunciar a cumplicidade das organiza\u00e7\u00f5es progressistas com as estruturas de poder patriarcais. Outra coisa bem diferente \u00e9 negar a exist\u00eancia da opress\u00e3o contra as mulheres, ridicularizar o movimento\u00a0Ni Una Menos\u00a0ou desmantelar os mecanismos de den\u00fancia e prote\u00e7\u00e3o que as mulheres constru\u00edram por meio da luta. A direita faz o \u00faltimo sob o disfarce do primeiro. Reconhecer as reais limita\u00e7\u00f5es do feminismo burgu\u00eas n\u00e3o significa ceder esse terreno; significa contest\u00e1-lo sob uma perspectiva mais ampla.<\/p>\n<p><strong>A estrat\u00e9gia para combater o machismo<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o fundamental, portanto, \u00e9 de classe. A opress\u00e3o das mulheres tem manifesta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e exige respostas concretas, mas n\u00e3o pode ser definitivamente erradicada em uma sociedade permeada por rela\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o. As conquistas democr\u00e1ticas e as pol\u00edticas p\u00fablicas atingem seus limites quando permanecem subordinadas aos governos burgueses e aos projetos de concilia\u00e7\u00e3o de classes. Portanto, a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o depende de uma maior institucionaliza\u00e7\u00e3o do feminismo ou de uma \u201cconsci\u00eancia de g\u00eanero\u201d abstrata, mas sim da constru\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es independentes do Estado e da burguesia, capazes de unir a luta contra o sexismo \u00e0 luta mais ampla da classe trabalhadora para transformar as condi\u00e7\u00f5es materiais que tornam poss\u00edveis todas as formas de opress\u00e3o. Porque as mulheres n\u00e3o precisam ver os homens como um advers\u00e1rio gen\u00e9rico. \u201cO que elas precisam \u00e9 reconhecer sua pr\u00f3pria for\u00e7a e se unir \u2014 como mulheres, com todo o seu potencial \u2014 \u00e0 sua classe para lutar pelo fim da sociedade capitalista\u201c.<\/p>\n<p><strong>Notas:<\/strong><\/p>\n<p>Cecilia Ce (Cecilia Canzonetta) \u00e9 psic\u00f3loga, sex\u00f3loga cl\u00ednica e escritora. Ela ficou conhecida por popularizar a sexologia de forma direta, sem tabus e com uma linguagem bem-humorada nas redes sociais, em livros e no teatro. \u00c9 autora dos best-sellers \u201cSexo ATR\u201d e \u201cCarnaval toda la vida\u201d, ambos recordistas de vendas. Trabalhou como colunista em programas populares, como \u201cPerros de la Calle\u201d, no canal Urbana Play, e recebeu pr\u00eamios importantes por suas contribui\u00e7\u00f5es para a educa\u00e7\u00e3o sexual abrangente com uma perspectiva de g\u00eanero.\u00a0\u21a9\ufe0e<br \/>\nNacho Levy (Ignacio Levy) \u00e9 jornalista, professor e ativista social. Foi um dos l\u00edderes de \u201cLa Garganta Poderosa\u201d, o bra\u00e7o liter\u00e1rio da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social \u201cLa Poderosa\u201d. Essa organiza\u00e7\u00e3o, fundada em 2004, \u00e9 conhecida por sua estrutura de assembleias territoriais em bairros oper\u00e1rios e favelas. Apesar de declarar independ\u00eancia de partidos pol\u00edticos, \u201cLa Poderosa\u201d manteve, ao longo de sua hist\u00f3ria, uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com governos kirchneristas e pa\u00edses latino-americanos, como a Venezuela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por: Mariana Romero e Ale Cuervo, GOI \u2013 Argentina Em junho deste ano, Cecilia Ce1\u00a0relatou ter sido v\u00edtima de viol\u00eancia psicol\u00f3gica e abuso emocional durante o relacionamento com Nacho Levy2. Ela descreveu padr\u00f5es de controle e de manipula\u00e7\u00e3o emocional, esclarecendo que n\u00e3o envolvia viol\u00eancia f\u00edsica, mas sim uma din\u00e2mica emocionalmente violenta. 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