{"id":1435,"date":"2026-06-16T15:58:19","date_gmt":"2026-06-16T15:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/cir-internacional.org\/pt\/?p=1435"},"modified":"2026-06-16T15:59:08","modified_gmt":"2026-06-16T15:59:08","slug":"dois-modelos-de-colonizacao-nas-americas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cir-internacional.org\/pt\/dois-modelos-de-colonizacao-nas-americas\/","title":{"rendered":"Dois modelos de coloniza\u00e7\u00e3o nas Am\u00e9ricas"},"content":{"rendered":"<p>Por que os Estados Unidos se consolidaram como pot\u00eancia industrial no in\u00edcio do s\u00e9culo XX enquanto a Am\u00e9rica Latina permanecia estagnada em uma estrutura dependente e semicolonial? Longe dos mitos sobre uma suposta \u00absuperioridade\u00bb anglo-sax\u00f4nica, analiso neste ensaio as condi\u00e7\u00f5es objetivas \u2014 clima, solo e disponibilidade de m\u00e3o de obra \u2014 que definiram duas vias de desenvolvimento capitalista contrapostas. Meu objetivo \u00e9 desmontar a tese do \u00abatraso feudal\u00bb latino-americano e apontar a responsabilidade das burguesias locais na consolida\u00e7\u00e3o de nossas economias como dependentes e fornecedoras de mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p><em>Este texto re\u00fane, de forma revisada e ampliada, a s\u00e9rie de artigos que publiquei originalmente em espanhol no jornal ABC Color (Paraguai), sob o t\u00edtulo \u00abImperios de ultramar en Am\u00e9rica\u00bb [Imp\u00e9rios de ultramar na Am\u00e9rica], entre novembro e dezembro de 2023.<\/em><\/p>\n<p><strong>(I) Dos mitos aos fatos<\/strong><\/p>\n<p><em>Por Ronald Le\u00f3n N\u00fa\u00f1ez<\/em><\/p>\n<p>Como um territ\u00f3rio que, h\u00e1 menos de 250 anos, estava submetido ao jugo colonizador de uma pot\u00eancia estrangeira p\u00f4de n\u00e3o apenas se desenvolver ao ponto de superar sua antiga metr\u00f3pole, mas tamb\u00e9m erguer-se como o imperialismo hegem\u00f4nico do planeta?<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das muitas perguntas que o estudo da extraordin\u00e1ria hist\u00f3ria dos atuais Estados Unidos da Am\u00e9rica imp\u00f5e. Na Hispano-Am\u00e9rica, por exemplo, ronda o mito de que os EUA se transformaram em pot\u00eancia mundial devido ao fato de terem sido colonizados por engenhosos anglo-sax\u00f5es que teriam legado, al\u00e9m de uma suposta superioridade racial, uma mentalidade muito mais ambiciosa, disciplinada e laboriosa.<\/p>\n<p>Os colonos ingleses, segundo essa cren\u00e7a, teriam impulsionado um modelo de coloniza\u00e7\u00e3o \u00abcapitalista\u00bb, enquanto seus pares ib\u00e9ricos, satisfeitos com a mera suc\u00e7\u00e3o de recursos, teriam \u00abtransplantado\u00bb o feudalismo europeu para estas latitudes. Consequentemente, o atraso latino-americano seria produto de uma pretensa \u00abheran\u00e7a feudal\u00bb. Ambos os processos colonizadores possu\u00edam uma natureza tendencialmente capitalista, impulsionada sobretudo pela din\u00e2mica do emergente mercado mundial, ainda que tenham se materializado por vias distintas.<\/p>\n<p>A interpreta\u00e7\u00e3o que enaltece a \u00absuperioridade\u00bb da coloniza\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica tem suas ra\u00edzes em escolas historiogr\u00e1ficas liberais \u2013 embora, posteriormente, tenha sido assumida por expoentes do estalinismo e suas variantes \u2013. Embora seja uma leitura superficial e, por conseguinte, simplificadora, ela repousa sobre certos elementos verdadeiros que, erroneamente, s\u00e3o absolutizados de forma deliberada.<\/p>\n<p>O primeiro deles \u00e9 que, efetivamente, os EUA emergiram do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o americano e entraram no s\u00e9culo XX como uma pot\u00eancia imperialista, ao passo que o restante das Am\u00e9ricas manteve uma condi\u00e7\u00e3o semicolonial.<\/p>\n<p>O segundo tem a ver com as diferen\u00e7as entre tipos de colonos e modelos de coloniza\u00e7\u00e3o no norte e no sul do continente americano. Os primeiros colonos ingleses na Am\u00e9rica do Norte \u2013 se tomarmos o cl\u00e1ssico exemplo dos \u00abPadres Peregrinos\u00bb (Pilgrim Fathers) \u2013 compunham um setor social perseguido pela monarquia absolutista anglicana devido ao dogma religioso que professavam: o calvinismo. Eram conservadores em todos os terrenos, mas movia-os o af\u00e3 de encontrar um lugar no mundo em meio \u00e0 repress\u00e3o na Inglaterra e ao tumultuado ambiente pol\u00edtico europeu durante o s\u00e9culo XVII. Isso fez com que esses colonos \u2013 que haviam fugido do Velho Continente \u2013 aspirassem a estabelecer-se do outro lado do Atl\u00e2ntico de acordo com suas cren\u00e7as e costumes.<\/p>\n<p>O caso dos conquistadores ib\u00e9ricos foi distinto. N\u00e3o constitu\u00edam um setor perseguido, mas sim impulsionado pela Coroa para embarcar rumo \u00e0 conquista do Novo Mundo. Em termos gerais, pode-se afirmar que n\u00e3o pretendiam estabelecer-se nos territ\u00f3rios conquistados \u2013 embora muitos o tenham feito, evidentemente \u2013, mas sim enriquecer o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para retornar \u00e0 metr\u00f3pole. A aspira\u00e7\u00e3o do grosso dos conquistadores ib\u00e9ricos era ascender socialmente em sua terra de origem, n\u00e3o nas col\u00f4nias.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as subjetivas entre os colonos do norte e do sul das Am\u00e9ricas, como veremos, podem ser explicadas de modo objetivo.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental compreender que, se os EUA alcan\u00e7aram seu atual grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, isso n\u00e3o se deveu \u00e0 obra de sua antiga metr\u00f3pole, mas a um fato de sinal oposto.<\/p>\n<p>A base sobre a qual se constru\u00edram os EUA reside na maneira como as treze col\u00f4nias romperam as correntes que as sujeitavam a Londres. A Guerra de Independ\u00eancia (1775-1783) foi o primeiro e decisivo passo de um processo revolucion\u00e1rio que permitiu uma colossal liberta\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas, a qual possibilitou n\u00e3o apenas a exist\u00eancia dos EUA, mas tamb\u00e9m seu posterior salto at\u00e9 a c\u00faspide da domina\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Os primeiros europeus que exploraram e conquistaram partes da Am\u00e9rica do Norte foram espanh\u00f3is. Juan Ponce de Le\u00f3n reivindicou a Fl\u00f3rida para a Coroa espanhola em 1513, embora o primeiro assentamento permanente na regi\u00e3o, San Agust\u00edn, s\u00f3 tenha sido fundado em 1565. Em sucessivas expedi\u00e7\u00f5es, a Espanha estendeu seus dom\u00ednios pelo sudoeste e pela costa do Pac\u00edfico. Posteriormente, o Tratado de Paris \u2013 que selou o fim da Guerra dos Sete Anos \u2013 outorgou ao reino espanhol a Luisiana \u2013 ent\u00e3o sob dom\u00ednio franc\u00eas \u2013 em 1763[1].<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o inglesa come\u00e7aria de forma efetiva quase um s\u00e9culo depois das primeiras incurs\u00f5es espanholas. A expedi\u00e7\u00e3o que resultou na funda\u00e7\u00e3o de Jamestown (Virg\u00ednia), em 1607, integrava um plano de coloniza\u00e7\u00e3o financiado por uma empresa chamada Companhia de Virg\u00ednia (Virginia Company); embora inicialmente buscassem metais preciosos, a col\u00f4nia consolidou-se anos mais tarde por meio do cultivo rent\u00e1vel do tabaco.<\/p>\n<p>Os primeiros puritanos, dos quais falamos anteriormente, chegaram em 1620 a bordo do navio chamado Mayflower para colonizar a zona nordeste (Nova Inglaterra). A expans\u00e3o desses colonos foi relativamente r\u00e1pida em uma faixa de territ\u00f3rio ao longo da costa do Atl\u00e2ntico que resultaria nas treze col\u00f4nias existentes no s\u00e9culo XVIII, desde New Hampshire, no norte, at\u00e9 a Ge\u00f3rgia, no sul.<\/p>\n<p>A conquista de outros territ\u00f3rios, hoje estadunidenses, foi posterior \u00e0 independ\u00eancia. Em 1803, Napole\u00e3o Bonaparte, ent\u00e3o primeiro-c\u00f4nsul franc\u00eas, vendeu a Luisiana aos EUA[2]. Em 1819, sob o reinado de Fernando VII, a Espanha cedeu a Fl\u00f3rida, alargando ainda mais o dom\u00ednio de Washington. Em 1867, adquiriram o Alasca do Imp\u00e9rio Russo. A expans\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o ao oeste realizou-se de maneira brutal. A doutrina do Destino Manifesto[3] levou a pujante burguesia estadunidense n\u00e3o apenas a cometer atrocidades contra as comunidades ind\u00edgenas, mas, sobretudo, a empreender uma guerra de conquista contra o M\u00e9xico (1846-1848), que resultou na anexa\u00e7\u00e3o de mais de 50% do solo mexicano, expandindo drasticamente as fronteiras dos EUA rumo ao Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Como propusemos, \u00e9 um fato que as treze col\u00f4nias mostraram caracter\u00edsticas distintas das dos territ\u00f3rios conquistados pelos ib\u00e9ricos ou mesmo por outros ingleses, por exemplo, nas Antilhas. N\u00e3o se desenvolveram sobre a base da extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos, mas sobre a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola destinada, principalmente, \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para a metr\u00f3pole. Isso contribuiu para que os colonos concebessem o territ\u00f3rio conquistado como um estabelecimento mais permanente.<\/p>\n<p>Das treze col\u00f4nias, as do Norte especializaram-se na pequena agricultura (\u00abfarmers\u00bb), al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o artesanal e, posteriormente, manufatureira \u2014 modelo que estimulava a cria\u00e7\u00e3o de um mercado interno e, a longo prazo, tenderia a privilegiar o trabalho \u00ablivre\u00bb. Este seria o caldo de cultura para uma burguesia com interesses pr\u00f3prios. Disposta a levar tudo \u00e0 sua frente, ela seria a vanguarda da luta pela independ\u00eancia e, quase um s\u00e9culo depois, conduziria o processo de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Por sua vez, as col\u00f4nias do sul especializaram-se em cultivos extensivos (\u00abplantations\u00bb), sobretudo de tabaco e arroz \u2014 aos quais se somaria o algod\u00e3o no per\u00edodo p\u00f3s-independ\u00eancia \u2014, orientados quase exclusivamente ao com\u00e9rcio exterior e sustentados no trabalho de africanos escravizados.<\/p>\n<p>Portanto, se no conjunto as treze col\u00f4nias nasceram como engrenagens do mercado mundial capitalista, em escala local foi-se incubando uma divis\u00e3o na burguesia nativa sobre qual modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista deveria ser adotado. O duelo entre ambos os projetos estrat\u00e9gicos de na\u00e7\u00e3o s\u00f3 se resolveria ap\u00f3s a Guerra de Secess\u00e3o (1861-1865).<\/p>\n<p>Mas as peculiaridades do norte dos EUA em rela\u00e7\u00e3o ao sul e ao restante do continente n\u00e3o podem ser explicadas com teorias racistas ou centrando-se no influxo da ideologia calvinista nesse processo de modelagem nacional. Se os colonos puritanos n\u00e3o se dedicaram \u00e0 extra\u00e7\u00e3o de metais preciosos \u2013 como fizeram os espanh\u00f3is, por exemplo, em Potos\u00ed \u2013 ou \u00e0s planta\u00e7\u00f5es em larga escala para a exporta\u00e7\u00e3o como fizeram seus compatriotas sulistas \u2013 utilizando m\u00e3o de obra escrava importada da \u00c1frica \u2013, n\u00e3o foi porque n\u00e3o quisessem, mas porque n\u00e3o encontraram as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias.<\/p>\n<p><strong>(II) Mercado interno, burguesias nacionais e revolu\u00e7\u00e3o anticolonial<\/strong><\/p>\n<p>O historiador marxista Milc\u00edades Pe\u00f1a assinalou, corretamente, que a diferen\u00e7a fundamental entre os desenvolvimentos hist\u00f3ricos no norte e no sul do continente residiu em condi\u00e7\u00f5es objetivas sobre as quais se assentou a coloniza\u00e7\u00e3o: n\u00e3o foi de car\u00e1ter racial ou \u00abespiritual\u00bb, mas sim de \u00abclima, terreno, disponibilidade de m\u00e3o de obra\u00bb[4].<\/p>\n<p>Nos meios de esquerda, era comum que os intelectuais estalinistas reverenciassem o processo hist\u00f3rico da Am\u00e9rica do Norte como \u00abcapitalista\u00bb quase em estado puro. Alguns sustentam essa premissa at\u00e9 hoje. O contraste entre a civilizada sociedade industrial dos EUA e o atraso dos \u00abpa\u00edses perif\u00e9ricos\u00bb era instrumentalizado pelos agentes de Moscou para embasar sua conhecida tese da coloniza\u00e7\u00e3o \u00abfeudal\u00bb na Am\u00e9rica Latina e, com ela, justificar teoricamente uma pol\u00edtica de busca por alian\u00e7as permanentes com caudilhos ou partidos burgueses supostamente \u00abpatri\u00f3ticos e democr\u00e1ticos\u00bb, dispostos a levar adiante a \u00abrevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa\u00bb em pleno s\u00e9culo XX. Uma revolu\u00e7\u00e3o \u00abantifeudal\u00bb, lembremos, na qual o papel dirigente caberia \u00e0s burguesias locais, e n\u00e3o ao proletariado, que deveria refrear-se em uma posi\u00e7\u00e3o coadjuvante.<\/p>\n<p>Os marxistas respondiam que todo o continente (n\u00e3o apenas o Norte) fora colonizado no contexto de conforma\u00e7\u00e3o do mercado mundial capitalista, isto \u00e9, que, embora a produ\u00e7\u00e3o orientada ao mercado internacional se concretizasse apelando para uma combina\u00e7\u00e3o complexa de rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas (encomendas ou outras variantes de servid\u00e3o, escravid\u00e3o ind\u00edgena e africana etc.) e embri\u00f5es de trabalho \u00ablivre\u00bb, o \u00absentido\u00bb dessa empresa era essencialmente burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, argumentavam, n\u00e3o havia existido um \u00abfeudalismo\u00bb nos moldes do Medievo europeu. Existiu uma coloniza\u00e7\u00e3o brutal que, desde a sua origem, fez parte de um processo muito mais amplo: a acumula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria de capital na Europa. Portanto, as raz\u00f5es do \u00abatraso\u00bb econ\u00f4mico no sul das Am\u00e9ricas n\u00e3o residiam em um pretenso \u00abpassado feudal\u00bb, como defendia o estalinismo, mas na incorpora\u00e7\u00e3o, desde sua g\u00e9nese dependente, ao longo processo de origem do capitalismo mundial. As burguesias terceiro-mundistas, satisfeitas com seu papel de \u00abs\u00f3cias menores\u00bb das sucessivas pot\u00eancias hegem\u00f4nicas, n\u00e3o tinham interesse em impulsionar sequer as tarefas que, historicamente, lhes pertenciam: resolu\u00e7\u00e3o do problema da terra, soberania nacional, democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade, etc. Em outras palavras, sentenciavam os marxistas latino-americanos, no s\u00e9culo XX inclusive as tarefas da \u00abrevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa\u00bb haviam passado \u00e0s m\u00e3os do proletariado, que as resolveria integralmente incorporando-as no programa socialista.<\/p>\n<p>No contexto desta interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica global, Pe\u00f1a explica que no norte do que hoje s\u00e3o os EUA imperava um clima mais frio, com solos pedregosos e menos adequados ao modelo de plantation; por isso, as terras s\u00f3 podiam ser exploradas em pequena escala. A isso somava-se o fato de que n\u00e3o havia muita m\u00e3o de obra ind\u00edgena dispon\u00edvel para ser subjugada, de maneira que os colonos puritanos ingleses \u2014 que chegaram buscando terras para subsistir com uma mentalidade de pequenos produtores \u2014 tiveram de sobreviver de seu pr\u00f3prio trabalho como agricultores. Devido \u00e0 natureza do terreno e \u00e0 escassez de bra\u00e7os, tornou-se imposs\u00edvel desenvolver uma economia de planta\u00e7\u00e3o como no sul, onde o clima, a fertilidade do solo e a produ\u00e7\u00e3o em grande escala de tabaco ou algod\u00e3o determinaram que a terra fosse cultivada por m\u00e3o de obra escrava, e n\u00e3o por camponeses independentes[5].<\/p>\n<p>No entanto, independentemente da metr\u00f3pole, os colonos europeus buscaram metais preciosos ou as mat\u00e9rias-primas demandadas pelo mercado mundial. A diferen\u00e7a objetiva foi que no norte dos EUA n\u00e3o existiam metais preciosos nem povos ind\u00edgenas que pudessem ser facilmente subjugados. N\u00e3o havia muito o que pudesse ser \u00abparasitado\u00bb, e isso gerou as condi\u00e7\u00f5es para uma economia baseada em uma classe de m\u00e9dios e pequenos agricultores que produziam por meio do trabalho familiar, intercambiavam entre si e com artes\u00e3os, e colocavam excedentes no mercado externo. Assim foram constru\u00eddos os alicerces para um amplo e din\u00e2mico mercado interno.<\/p>\n<p>Essa realidade foi oposta \u00e0 encontrada pelos colonos ingleses no sul ou pelos ib\u00e9ricos no restante da Am\u00e9rica, que se assentaram sobre terras mais f\u00e9rteis ou exploraram minas de metais preciosos submetendo milh\u00f5es de ind\u00edgenas ou negros africanos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de servos ou escravizados: uma massa de for\u00e7a de trabalho t\u00e3o imensa e relativamente \u00abf\u00e1cil\u00bb de repor que os colonizadores pouco se importavam que fosse \u00abmo\u00edda\u00bb nos engenhos de a\u00e7\u00facar ou que apodrecesse nas minas.<\/p>\n<p>Em paragens como o Rio da Prata, por exemplo, os colonizadores europeus e a embrion\u00e1ria burguesia local encontraram condi\u00e7\u00f5es t\u00e3o favor\u00e1veis para a pecu\u00e1ria que bastava pouco mais que se sentar e contemplar como as vacas engordavam para depois exportar os couros (a princ\u00edpio sem processamento) ou o charque (carne salgada) na regi\u00e3o ou para o outro lado do Atl\u00e2ntico, conformando um modelo e um modus vivendi que Pe\u00f1a denominou ironicamente \u00abciviliza\u00e7\u00e3o do couro\u00bb. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender, pelo menos em linhas gerais, que aqueles setores burgueses n\u00e3o tinham muitas raz\u00f5es objetivas para se interessar no fortalecimento de um mercado interno ou assumir os riscos pr\u00f3prios das empresas manufatureiras.<\/p>\n<p>Com tudo isso, o certo \u00e9 que, se os \u00abindustriosos\u00bb colonos nortistas tivessem encontrado metais preciosos ou melhores condi\u00e7\u00f5es para submeter a for\u00e7a de trabalho local a fim de extrair excedente social, teriam se comportado exatamente como os colonos sulistas e como os ib\u00e9ricos no restante das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Nahuel Moreno, dirigente trotskista argentino, abordou o problema de uma maneira mais complexa, apontando um paradoxo hist\u00f3rico merecedor de aten\u00e7\u00e3o. Ele sustentou que o prop\u00f3sito original da coloniza\u00e7\u00e3o do norte dos EUA era pr\u00f3prio de uma mentalidade feudal: trabalhar a terra, em primeiro lugar, para o autoabastecimento, sem pretender uma liga\u00e7\u00e3o excessiva com o com\u00e9rcio internacional. Contudo, apesar das tentativas dos primeiros colonos de recriar certas rela\u00e7\u00f5es feudais, nunca se plasmou uma \u00abclasse latifundi\u00e1ria feudal\u00bb, dado o excesso de terras e a escassez de \u00abservos\u00bb. Havia tanta terra dispon\u00edvel que se tornava dif\u00edcil sujeitar os trabalhadores a ela, visto que sempre existia a possibilidade de migrar mais em dire\u00e7\u00e3o ao oeste e estabelecer uma propriedade \u2014 evidentemente, com todos os riscos que isso implicava[6].<\/p>\n<p>Em suma, nenhuma tentativa de \u00abreimplantar\u00bb as institui\u00e7\u00f5es do feudalismo, em sentido estrito, prosperou na Am\u00e9rica do Norte. Por mais empenho que determinados setores propriet\u00e1rios de terras colocassem nessa tarefa, segundo o historiador George Novack, simplesmente \u00abn\u00e3o podiam levar para essa parte do novo mundo todo o contexto hist\u00f3rico e as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que haviam florescido na Idade M\u00e9dia em favor do feudalismo na Europa ocidental\u00bb[7].<\/p>\n<p>A mesma sorte correram as tentativas de recriar corpora\u00e7\u00f5es de of\u00edcio fechadas de caracter\u00edsticas medievais. Nenhuma casta fixa se cristalizou nas cidades portu\u00e1rias mais importantes do Atl\u00e2ntico Norte (Filad\u00e9lfia, Nova York, Boston e Charleston\u2026). Essas cidades, ainda com uma popula\u00e7\u00e3o relativamente pequena, eram atravessadas por fren\u00e9ticas atividades comerciais que as vinculavam a regi\u00f5es cada vez mais distantes. Como escreveu Hobsbawm, no final do s\u00e9culo XVIII \u00abestar perto de um porto era estar perto do mundo\u00bb[8]. Nesse ambiente, n\u00e3o apenas os farmers, mas tamb\u00e9m artes\u00e3os de todos os tipos prosperaram de maneira relativamente livre.<\/p>\n<p>Na segunda metade do s\u00e9culo XVIII, pode-se dizer que as condi\u00e7\u00f5es para a revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa anticolonial estavam maduras. O grau de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, sobretudo no norte das treze col\u00f4nias, havia atingido um n\u00edvel que exigia a liberta\u00e7\u00e3o da camisa de for\u00e7a colonial imposta pela monarquia brit\u00e2nica. Existia uma jovem burguesia local disposta a destruir qualquer obst\u00e1culo para expandir seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. Uma burguesia que j\u00e1 se mostrava insaci\u00e1vel, talvez por estar consciente de que estava sentada sobre um enorme potencial econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>A combina\u00e7\u00e3o desse desenvolvimento interno com eventos externos geraria as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para detonar uma das revolu\u00e7\u00f5es burguesas anticoloniais mais emblem\u00e1ticas e sangrentas da hist\u00f3ria \u2013 com mais de 45.000 norte-americanos mortos durante a Guerra de Independ\u00eancia e a Guerra de 1812, ambas contra o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico \u2013, a qual abriu as comportas para o crescimento de um capitalismo nacional como poucos no mundo.<\/p>\n<p>Assim, o desenvolvimento tit\u00e2nico dos EUA n\u00e3o se deveu \u00e0 pretendida \u00absuperioridade\u00bb da metr\u00f3pole brit\u00e2nica, mas, pelo contr\u00e1rio, \u00e0 forma radical como a jovem na\u00e7\u00e3o norte-americana rompeu com ela.<\/p>\n<p><strong>(III) Guerra Civil e aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Quase um s\u00e9culo ap\u00f3s a Declara\u00e7\u00e3o de Independ\u00eancia dos EUA[9], estourou a Guerra Civil (1861-1865), um fato que marcou um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria dessa na\u00e7\u00e3o, dadas as suas profundas repercuss\u00f5es econ\u00f4mico-sociais.<\/p>\n<p>Um estudo detalhado desse conflito, embora exceda o prop\u00f3sito deste artigo, \u00e9 inescap\u00e1vel para compreender a extraordin\u00e1ria transi\u00e7\u00e3o de um Estado nacional com passado colonial \u2014 e um pesado fardo pr\u00e9-capitalista sobre sua estrutura econ\u00f4mico-social, a escravid\u00e3o negra \u2014 para a condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia industrial e, posteriormente, imperialista.<\/p>\n<p>O conflito, basicamente, significou a culmina\u00e7\u00e3o por meios violentos de uma disputa interburguesa estrat\u00e9gica: qual modelo de acumula\u00e7\u00e3o capitalista prevaleceria no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Entre muitos fatores, \u00e9 amplamente aceito apontar como causa principal da guerra o desacordo entre os chamados estados livres (no Norte, onde a escravid\u00e3o era praticamente inexistente) e os estados escravistas (no Sul) sobre a prerrogativa do governo nacional de proibir a escravid\u00e3o nos territ\u00f3rios do Oeste que, eventualmente, integrassem a Uni\u00e3o como novos estados.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s d\u00e9cadas de acordos inst\u00e1veis com vistas a evitar o choque armado, a vit\u00f3ria eleitoral do republicano Abraham Lincoln, em 1860, precipitou a separa\u00e7\u00e3o de sete estados escravistas do Sul, que proclamaram a cria\u00e7\u00e3o dos Estados Confederados da Am\u00e9rica. Uma vez iniciadas as hostilidades, em abril de 1861, outros quatro estados aderiram \u00e0 causa secessionista. Os estados do Norte, por sua vez, organizaram a luta para restabelecer a Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com Alexander Stephens, vice-presidente da Confedera\u00e7\u00e3o, a \u00abpedra angular\u00bb do novo Estado repousava sobre \u00ab\u2026a grande verdade de que o negro n\u00e3o \u00e9 igual ao homem branco; que a escravid\u00e3o \u2014 a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 ra\u00e7a superior \u2014 \u00e9 a sua condi\u00e7\u00e3o natural e normal. Este, o nosso novo governo, \u00e9 o primeiro na hist\u00f3ria do mundo baseado nesta grande verdade f\u00edsica, filos\u00f3fica e moral\u00bb[10]. N\u00e3o deve surpreender que, at\u00e9 hoje, a bandeira confederada represente um s\u00edmbolo do supremacismo branco.<\/p>\n<p>A guerra despiu as acentuadas diferen\u00e7as estruturais entre ambos os lados. Desde o in\u00edcio, a superioridade demogr\u00e1fica, econ\u00f4mica e armamentista coube \u00e0 Uni\u00e3o. Por volta de 1860, cerca de 22 milh\u00f5es de pessoas habitavam o Norte, que, al\u00e9m disso, concentrava 72% da rede ferrovi\u00e1ria do pa\u00eds, 85% das f\u00e1bricas e 92% da produ\u00e7\u00e3o de ferro e a\u00e7o. O Sul, por sua vez, apesar de sua pauta estritamente prim\u00e1ria (algod\u00e3o e tabaco), controlava a maior parte das exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds gra\u00e7as ao seu complexo agroexportador. O desenvolvimento do tecido industrial nortista, consequentemente, traduziu-se em uma esmagadora supremacia militar.<\/p>\n<p>A guerra acelerou a corrida tecnol\u00f3gica. O mundo viu, em alguns casos pela primeira vez, o efeito mort\u00edfero da artilharia ferrovi\u00e1ria, das minas terrestres, da mira telesc\u00f3pica, do tel\u00e9grafo militar, da metralhadora Gatling e dos navios encoura\u00e7ados, como os c\u00e9lebres ironclads CSS Virginia e USS Monitor, entre outras inova\u00e7\u00f5es. Somente em 1862 foram emitidas 240 patentes de inven\u00e7\u00f5es voltadas ao uso militar, boa parte delas a servi\u00e7o da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>O Sul, em contrapartida, possu\u00eda uma estrutura econ\u00f4mica agroexportadora, sustentada no trip\u00e9 do latif\u00fandio, do monocultivo e do trabalho escravo. De seus nove milh\u00f5es de habitantes, quatro milh\u00f5es estavam escravizados. Embora dois ter\u00e7os dos sulistas n\u00e3o possu\u00edssem cativos, a escravid\u00e3o impregnava todos os \u00e2mbitos da sociedade.<\/p>\n<p>Cerca del 84% de los latifundios se situaba en el sur. La capacidad industrial de los secesionistas, como reflejo de esa estructura, era m\u00ednima. El valor de toda la producci\u00f3n manufacturera de la Confederaci\u00f3n no alcanzaba el 25% del valor producido por el mismo ramo en el estado de Nueva York.<\/p>\n<p>\u00c9 comum superdimensionar as pretens\u00f5es \u00abantiescravagistas\u00bb do Norte. N\u00e3o se deve perder de vista, a esse respeito, que Washington entrou na guerra para preservar a Uni\u00e3o, n\u00e3o para libertar os escravizados. N\u00e3o se pode dizer que a burguesia nortista fosse menos racista que a sulista. A quest\u00e3o central \u00e9 que, para o Norte, o trabalho \u00ablivre\u00bb havia se mostrado superior \u00e0 escravid\u00e3o negra em termos de lucro. A aboli\u00e7\u00e3o, assim, n\u00e3o foi o resultado de um idealismo abstrato, muito menos de senso humanit\u00e1rio, mas o requisito material para que o capital industrial pudesse subordinar definitivamente o conjunto da economia nacional.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Lincoln pensava que, mesmo ap\u00f3s uma hipot\u00e9tica emancipa\u00e7\u00e3o, pessoas brancas e negras n\u00e3o poderiam coexistir em paz. Por isso, o presidente aderia \u00e0 ideia de deportar contingentes de negros livres para a Lib\u00e9ria ou para a Am\u00e9rica Central[11]. At\u00e9 o conflito estar bem avan\u00e7ado, Lincoln insistia em que sua inten\u00e7\u00e3o era evitar que a escravid\u00e3o se expandisse para os novos territ\u00f3rios, e n\u00e3o proibi-la onde j\u00e1 era legal.<\/p>\n<p>Contudo, a din\u00e2mica de uma guerra cada vez mais longa e dispendiosa imp\u00f4s a necessidade de minar definitivamente os alicerces da economia sulista: a escravid\u00e3o. Pressionado, em 22 de setembro de 1862, logo ap\u00f3s a vit\u00f3ria estrat\u00e9gica da Uni\u00e3o em Antietam e considerando-a uma t\u00e1tica de guerra, Lincoln oficializou a Proclama\u00e7\u00e3o Preliminar da Emancipa\u00e7\u00e3o, pela qual, a partir de 1\u00ba de janeiro de 1863, \u00ab\u2026todas as pessoas mantidas como escravos\u00bb dentro dos estados rebeldes \u00abs\u00e3o, e de agora em diante ser\u00e3o, livres\u00bb[12]. Um fato hist\u00f3rico, sem d\u00favida, embora limitado. A medida valia apenas para os estados que haviam se separado, deixando intacta a escravid\u00e3o nos cinco estados escravistas que haviam se mantido na Uni\u00e3o[13].<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, essa decis\u00e3o sentenciou uma mudan\u00e7a significativa no car\u00e1ter da guerra[14]. A partir de 1863, o centro do conflito passou a ser, explicitamente, a sobreviv\u00eancia ou n\u00e3o da escravid\u00e3o. Um renovado entusiasmo tomou conta das fileiras nortistas, sobretudo entre os negros livres ou fugitivos, que se alistaram massivamente para defender a causa da Uni\u00e3o, \u00e0 qual associaram sua pr\u00f3pria sorte. Cerca de 200.000 negros, que se viam como libertadores, serviram no ex\u00e9rcito e na marinha dos EUA. Rumo ao final da guerra, os afro-americanos constitu\u00edam 10% de todo o ex\u00e9rcito da Uni\u00e3o; cerca de 40.000 morreram lutando contra os sulistas.<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o no teatro de opera\u00e7\u00f5es desse enorme contingente de ex-escravizados, a parcela mais oprimida da sociedade, constituiu uma poderosa for\u00e7a social que, a longo prazo, revelou-se decisiva para a vit\u00f3ria militar da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>A guerra terminou em abril de 1865. Cerca de tr\u00eas milh\u00f5es de soldados haviam combatido em mais de 10.000 batalhas ao longo de uma linha de 1.900 quil\u00f4metros. Estima-se que morreram 625.000 soldados, aproximadamente 2% da popula\u00e7\u00e3o da \u00e9poca[15]. Os estados do Sul, em bancarrota, foram ocupados por soldados da Uni\u00e3o e incorporados gradualmente aos Estados Unidos no transcorrer dos 12 anos que durou a chamada Reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A derrota categ\u00f3rica da Confedera\u00e7\u00e3o escravista permitiu a emerg\u00eancia de um novo pa\u00eds. A guerra havia resolvido dois problemas cruciais que a na\u00e7\u00e3o arrastava desde a sua independ\u00eancia: a unidade territorial e a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra, definitivamente ilegalizada em 6 de dezembro de 1865, com a D\u00e9cima Terceira Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. A forma radical como se concretizou esse fato contribuiu decisivamente para transformar o pa\u00eds em uma economia industrial sem paralelo nas Am\u00e9ricas[16].<\/p>\n<p>A Guerra Civil, com justi\u00e7a, pode ser considerada uma \u00absegunda revolu\u00e7\u00e3o\u00bb na hist\u00f3ria estadunidense.<\/p>\n<p><strong>(IV) Duas vias diante do problema da terra e o desenvolvimento industrial<\/strong><\/p>\n<p>O desfecho da Guerra Civil (1861-1865), que significou a reunifica\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o e a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o negra, liberou tal magnitude de for\u00e7as produtivas que, meio s\u00e9culo depois, os EUA rivalizavam com as pot\u00eancias europeias pela condi\u00e7\u00e3o de imperialismo hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Em termos de PIB, a ex-col\u00f4nia brit\u00e2nica \u00e9 a maior economia do mundo desde 1890. O Reino Unido, protagonista da primeira revolu\u00e7\u00e3o industrial, havia ficado para tr\u00e1s. Embora mantivesse superioridade militar e diplom\u00e1tica, em 1913 a economia da antiga metr\u00f3pole representava aproximadamente 43% da estadunidense[17].<\/p>\n<p>Entre 1865 e 1914, aplainado o caminho para o trabalho \u00ablivre\u00bb assalariado, teve lugar um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do Estado nacional e moderniza\u00e7\u00e3o do capitalismo dirigido pela triunfante burguesia nortista, disposta n\u00e3o apenas a moldar o pa\u00eds a seu bel-prazer, mas tamb\u00e9m a expandir seu dom\u00ednio para al\u00e9m de suas fronteiras, come\u00e7ando pelo restante das Am\u00e9ricas[18].<\/p>\n<p>O novo rumo come\u00e7ou a desenhar-se durante a guerra. Aproveitando a secess\u00e3o do Sul escravista, o Norte liderado pelo presidente Lincoln aprovou uma s\u00e9rie de legisla\u00e7\u00f5es fundamentais: a lei ferrovi\u00e1ria de 1862 (Pacific Railway Act); as leis banc\u00e1rias de 1863-1864 (National Banking Acts); e, principalmente, a lei de assentamentos rurais de 1862 (Homestead Act).<\/p>\n<p>No conjunto, essas medidas visavam expandir, consolidar, integrar e dinamizar um enorme mercado interno, estimulado pelo trabalho assalariado, que, por sua vez, servisse de base para o crescimento industrial.<\/p>\n<p>A Pacific Railway Act autorizou a constru\u00e7\u00e3o da primeira linha de ferrovia transcontinental. Cerca de 21.000 trabalhadores, sob condi\u00e7\u00f5es rigid\u00edssimas, protagonizaram a fa\u00e7anha de assentar 2.900 quil\u00f4metros de trilhos cortando rios, c\u00e2nions, montanhas e desertos[19]. A portentosa obra, inaugurada em 1869, conectou o pa\u00eds de costa a costa e reduziu uma viagem que superava quatro meses para uma semana. At\u00e9 1871, existiam 73.000 quil\u00f4metros de linhas f\u00e9rreas[20]. Entre 1871 e 1900, incorporaram-se outros 274.000 quil\u00f4metros. O governo financiou a ferrovia concedendo milh\u00f5es de acres de terras p\u00fablicas a empres\u00e1rios privados[21].<\/p>\n<p>A rede ferrovi\u00e1ria acelerou e consolidou a coloniza\u00e7\u00e3o do Oeste, vinculando novos territ\u00f3rios aos mercados interno e externo. Deixou para tr\u00e1s as ic\u00f4nicas dilig\u00eancias, muito mais lentas e arriscadas. Reduziu enormemente os custos de circula\u00e7\u00e3o de mercadorias[22] e de for\u00e7a de trabalho; dinamizou uma s\u00e9rie de ramos empresariais necess\u00e1rios para o seu funcionamento e para o desenvolvimento e integra\u00e7\u00e3o de novas cidades; mobilizou, ademais, enormes capitais que impuseram a moderniza\u00e7\u00e3o do sistema financeiro.<\/p>\n<p>A esse respeito, as leis banc\u00e1rias nacionais de 1863 e 1864, promulgadas inicialmente para facilitar o financiamento do esfor\u00e7o de guerra, estabeleceram importantes regula\u00e7\u00f5es federais sobre os bancos e a administra\u00e7\u00e3o da oferta monet\u00e1ria, vigentes at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do Sistema de Reserva Federal (Federal Reserve Act), em 1913[23].<\/p>\n<p>A coloniza\u00e7\u00e3o efetiva do Oeste p\u00f4s em primeiro plano o problema da terra. Este \u00e9 um fator-chave no debate acerca das diferen\u00e7as objetivas entre os processos de desenvolvimento capitalista no Norte e no Sul das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Detendo-nos neste tema, \u00e9 v\u00e1lida uma compara\u00e7\u00e3o entre os EUA e o Brasil oitocentistas em mat\u00e9ria de pol\u00edtica agr\u00e1ria e suas consequ\u00eancias no desenvolvimento industrial, dado que ambos os pa\u00edses t\u00eam em comum um passado colonial e escravista, mas contam com classes dominantes que se impuseram promovendo medidas econ\u00f4mico-sociais muito distintas.<\/p>\n<p>No caso dos EUA, pode-se dizer que o Homestead Act estabeleceu a base para o extraordin\u00e1rio desenvolvimento de seu mercado interno e, com isso, de sua capacidade industrial.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desse ato, a burguesia nortista optou por impulsionar um regime de posse da terra que se baseava em m\u00e9dias e pequenas propriedades, estimulando, assim, a coloniza\u00e7\u00e3o do Oeste por for\u00e7a de trabalho livre, nativa ou imigrante. Tratou-se de um modelo distinto do padr\u00e3o latifundi\u00e1rio e predominantemente agroexportador, apoiado na escravid\u00e3o negra, que imperava no Sul ou em pa\u00edses como o Brasil.<\/p>\n<p>Com efeito, o Homestead Act dispunha sobre uma reforma agr\u00e1ria na qual qualquer cidad\u00e3o com mais de 21 anos, chefe de fam\u00edlia, que n\u00e3o tivesse pegado em armas contra o governo ou colaborado com seus inimigos, podia reivindicar 160 acres de terras p\u00fablicas, aproximadamente 65 hectares[24].<\/p>\n<p>A principal condi\u00e7\u00e3o era que os benefici\u00e1rios se estabelecessem nessa parcela, cultivando-a e melhorando-a por um tempo m\u00ednimo de cinco anos. Superado esse prazo, podiam exigir o direito de propriedade basicamente pelo custo do registro administrativo. O ocupante, inclusive, podia acelerar esse tr\u00e2mite pagando 1,25 d\u00f3lar por acre ap\u00f3s meio ano de assentamento efetivo. Com legisla\u00e7\u00f5es aprovadas ap\u00f3s o t\u00e9rmino da guerra civil, os soldados da Uni\u00e3o podiam deduzir o tempo de servi\u00e7o daqueles prazos[25].<\/p>\n<p>Esta pol\u00edtica agr\u00e1ria estadunidense mobilizou dezenas de milhares de cidad\u00e3os da costa leste, imigrantes europeus, mulheres e at\u00e9 pessoas anteriormente escravizadas, que protagonizaram um \u00eaxodo em dire\u00e7\u00e3o ao Oeste. Nem todos conseguiram o sonho da terra pr\u00f3pria e de uma vida melhor, sem d\u00favida. De fato, 60% desse contingente fracassou, mas isso n\u00e3o desmente a amplitude da concess\u00e3o de terras.<\/p>\n<p>Evidentemente, dado o seu car\u00e1ter burgu\u00eas, a coloniza\u00e7\u00e3o promovida pelo governo ergueu-se sobre o massacre e a destrui\u00e7\u00e3o do modo de vida dos povos origin\u00e1rios; foi uma aut\u00eantica \u00abacumula\u00e7\u00e3o por espolia\u00e7\u00e3o\u00bb. A esmagadora maioria dos colonos foi de homens brancos. Al\u00e9m disso, boa parte das terras foi a\u00e7ambarcada por especuladores, pecuaristas, mineradores e, como apontamos, por empresas ferrovi\u00e1rias.<\/p>\n<p>Contudo, mesmo nesse contexto, estima-se que at\u00e9 1904 cerca de 80 milh\u00f5es de acres pertenciam efetivamente a pequenos propriet\u00e1rios, que haviam estabelecido 372.000 fazendas. Durante a vig\u00eancia do Homestead Act, foram concedidos mais de 1,6 milh\u00e3o de t\u00edtulos de propriedade. At\u00e9 1988, quando se adjudicou a \u00faltima parcela, aproximadamente 270 milh\u00f5es de acres, equivalentes a 10% da superf\u00edcie do pa\u00eds, haviam sido praticamente doados pelo Estado. Atualmente, por volta de 25% dos estadunidenses s\u00e3o descendentes de colonos que receberam terras p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o pelo loteamento da terra em glebas menores, somada \u00e0s demais medidas que apontamos, ampliou o mercado interno e moldou uma pequena burguesia rural consumidora de produtos industriais. O crescimento da demanda inspirou inventos e acelerou a produ\u00e7\u00e3o e a distribui\u00e7\u00e3o de mercadorias de maneira formid\u00e1vel. Em 1900, com uma popula\u00e7\u00e3o que superava os 76 milh\u00f5es, os EUA eram um mercado de massas.<\/p>\n<p>O arranque da ind\u00fastria, que continuou concentrada no Norte[26], transformou por completo a sociedade estadunidense. A concentra\u00e7\u00e3o de capital fez com que um punhado de magnatas, os \u00abbar\u00f5es ladr\u00f5es\u00bb (robber barons), acumulasse fortunas imensas. Surgiram novas ind\u00fastrias, cujas principais empresas logo se articularam em trusts, como a do petr\u00f3leo, do a\u00e7o, da energia el\u00e9trica etc. Surgiu uma ampla classe m\u00e9dia que abra\u00e7ou o American way of life como dogma principal.<\/p>\n<p>A classe oper\u00e1ria, por sua vez, produzia toda a riqueza em condi\u00e7\u00f5es de superexplora\u00e7\u00e3o. Enormes contingentes de migrantes do campo e de imigrantes engrossavam as fileiras do jovem proletariado. Entre 1870 e 1900, quase 12 milh\u00f5es de imigrantes entraram nos EUA, 70% deles por Nova York, a \u00abPorta de Ouro\u00bb do \u00absonho americano\u00bb. Estima-se que, em 1890, um quarto da for\u00e7a de trabalho nacional j\u00e1 estivesse ocupado diretamente em atividades industriais.<\/p>\n<p>Nesse mesmo per\u00edodo, as cidades cresceram a um ritmo espetacular. Em 1920, a popula\u00e7\u00e3o urbana superou a rural[27]. O valor anual da produ\u00e7\u00e3o industrial ultrapassou o da agr\u00edcola em 1890. Uma d\u00e9cada depois, duplicava-o. Entre 1875 e 1920, a produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7o estadunidense aumentou de 380.000 toneladas para 60 milh\u00f5es de toneladas anuais, convertendo o pa\u00eds em l\u00edder mundial do setor.<\/p>\n<p>Os EUA receberam o s\u00e9culo XX sendo a principal pot\u00eancia industrial. Em 1913, o colosso norte-americano era respons\u00e1vel por 36% de toda a produ\u00e7\u00e3o industrial do mundo, superando largamente a Alemanha (16%) e o Reino Unido (14%)[28].<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de uma ex-col\u00f4nia, ancorada em uma economia baseada no setor prim\u00e1rio, para um pa\u00eds imperialista ocorreu por uma combina\u00e7\u00e3o desigual de muitos fatores, mas podemos afirmar sem temor de exagero que esse processo teria sido imposs\u00edvel sem as duas guerras revolucion\u00e1rias com as quais os EUA romperam com sua antiga metr\u00f3pole e, quase noventa anos depois, ilegalizaram a escravid\u00e3o negra.<\/p>\n<p>Nada similar ocorreu em pa\u00edses como o Brasil. Embora a historiografia recente resgate importantes focos de resist\u00eancia e conflitos armados em regi\u00f5es como Bahia, Piau\u00ed ou o Gr\u00e3o-Par\u00e1, o desfecho do processo de independ\u00eancia foi essencialmente conduzido pela pr\u00f3pria Coroa. Diferentemente da ruptura revolucion\u00e1ria estadunidense, a elite brasileira costurou uma transi\u00e7\u00e3o pactuada e preventivamente amortecida que assegurou a continuidade da ordem mon\u00e1rquica e, sobretudo, a preserva\u00e7\u00e3o da estrutura escravista. Esta &#8216;preserva\u00e7\u00e3o do velho&#8217; no seio da nova na\u00e7\u00e3o bloqueou de sa\u00edda qualquer possibilidade de uma colossal libera\u00e7\u00e3o de for\u00e7as produtivas como a vista na Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>Esta diverg\u00eancia na resolu\u00e7\u00e3o das tarefas democr\u00e1tico-burguesas manifestou-se com especial clareza no acesso \u00e0 propriedade. Na quest\u00e3o da terra, apesar de seus limites, a pol\u00edtica agr\u00e1ria estadunidense terminaria sendo muito superior \u2014 em termos de desenvolvimento capitalista \u2014 ao modelo latifundi\u00e1rio estimulado no Imp\u00e9rio do Brasil.<\/p>\n<p><strong>(V) A op\u00e7\u00e3o pelo latif\u00fandio agroexportador<\/strong><\/p>\n<p>Diante do problema da terra \u2014com as implica\u00e7\u00f5es que discutimos em mat\u00e9ria de mercado interno e pol\u00edtica industrial\u2014, as classes dominantes latino-americanas adotaram um caminho diferente do estadunidense. Aqui nos deteremos, ainda que em linhas gerais, nos casos do Brasil e da Argentina oitocentistas.<\/p>\n<p>Em 18 de setembro de 1850, o imperador Dom Pedro II sancionou a Lei de Terras[29], que tramitava no Parlamento desde 1843, oficializando a op\u00e7\u00e3o pelo latif\u00fandio em detrimento da pequena propriedade. Essa legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 chave para compreender a hist\u00f3rica desigualdade na posse da terra, que consolidou uma classe propriet\u00e1ria hostil a pol\u00edticas de desenvolvimento industrial. A influ\u00eancia desse setor propriet\u00e1rio, ligado umbilicalmente a empresas imperialistas, perdura at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A normativa e o processo legislativo puseram em evid\u00eancia a mentalidade de importantes senadores e deputados do per\u00edodo imperial, em geral grandes propriet\u00e1rios de terras e escravos. Segundo a Ag\u00eancia Senado, o ent\u00e3o senador Costa Ferreira, do Maranh\u00e3o, manifestou: \u00abIsso de repartir terras em pequenos peda\u00e7os n\u00e3o \u00e9 pratic\u00e1vel. S\u00f3 aquele que nunca foi lavrador pode julgar o contr\u00e1rio. S\u00e3o utopias. Ningu\u00e9m se dirige para l\u00e1 [o interior do pa\u00eds]. Ningu\u00e9m quer arriscar-se\u00bb[30].<\/p>\n<p>Um argumento dos latifundi\u00e1rios era que os pequenos camponeses, ao contr\u00e1rio dos grandes fazendeiros, careciam da for\u00e7a necess\u00e1ria para expulsar os ind\u00edgenas e assentar-se no territ\u00f3rio. Sob essa suposi\u00e7\u00e3o, conclu\u00eda Costa Ferreira, \u00ab\u2026a na\u00e7\u00e3o lucra muito, pois, ao vender as fazendas nacionais a particulares que as cultivem\u00bb[31].<\/p>\n<p>Recordemos que, ap\u00f3s a independ\u00eancia em 1822, dom Pedro I proibiu a doa\u00e7\u00e3o de novas sesmarias, o regime de reparti\u00e7\u00e3o de terras a grandes propriet\u00e1rios durante a Col\u00f4nia. No entanto, o nascente Imp\u00e9rio n\u00e3o imp\u00f4s uma nova legisla\u00e7\u00e3o em seu lugar. Isso propiciou, at\u00e9 1850, a ocupa\u00e7\u00e3o mais ou menos livre de terras p\u00fablicas n\u00e3o cultivadas. Assim surgiu uma massa de camponeses pobres, com uma produ\u00e7\u00e3o orientada ao autoconsumo, que coexistia com poderosos latifundi\u00e1rios que, por meio da explora\u00e7\u00e3o de for\u00e7a de trabalho escrava, produziam para a exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por regra geral, nem sesmeiros (grandes plantadores, minorit\u00e1rios) nem posseiros (pequenos camponeses, majorit\u00e1rios) detinham escrituras legais das terras que exploravam. Tampouco existiam limites legais entre uma terra e outra. No contexto de \u00abmuitas posses de muitos donos\u00bb, segundo o senador paulista Francisco de Paula Souza, os conflitos se resolviam com o \u00abbocamarte [esp\u00e9cie de espingarda]\u00bb[32], pr\u00e1tica que segue vigente.<\/p>\n<p>Para o senador Vergueiro era necess\u00e1rio frear as \u00abinvas\u00f5es\u00bb de pequenos posseiros por serem danosas n\u00e3o apenas ao Tesouro, mas \u00e0 \u00abciviliza\u00e7\u00e3o, porque essa gente se espalha no meio do deserto (sert\u00e3o) e se barbariza, n\u00e3o reconhece autoridades sen\u00e3o as suas paix\u00f5es\u00bb[33].<\/p>\n<p>A Lei de Terras de 1850 significou um salto na pol\u00edtica de consolida\u00e7\u00e3o da estrutura latifundi\u00e1ria, presente desde a origem da coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa, porque determinou que o acesso \u00e0 terra se daria unicamente por meio da compra, e j\u00e1 n\u00e3o por ocupa\u00e7\u00e3o ou posse. A antiga concess\u00e3o real a t\u00edtulo pessoal foi suplantada pela impessoalidade da compra e venda. Em outros termos, aquele que aspirasse a uma parcela para cultivar e melhorar sua vida estava obrigado a compr\u00e1-la. A desobedi\u00eancia seria punida com pris\u00e3o.<\/p>\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da lei, por outro lado, expulsaria os pequenos produtores que haviam ocupado terras p\u00fablicas. A \u00abanistia\u00bb, interregno para sanar irregularidades, favoreceu amplamente os sesmeiros. Os camponeses pobres, com menos acesso a informa\u00e7\u00f5es e sem poder custear as elevadas taxas de legaliza\u00e7\u00e3o, acabaram expulsos das terras que trabalhavam.<\/p>\n<p>A Lei de Terras, como se sabe, chegou de m\u00e3os dadas com outra normativa hist\u00f3rica: a Lei Eus\u00e9bio de Queir\u00f3s, que entrou em vigor duas semanas antes. O Imp\u00e9rio do Brasil, pressionado pelo Reino Unido, finalmente ilegalizava o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de escravizados em seu territ\u00f3rio. A essa altura, os propriet\u00e1rios estavam conscientes de que o fim da escravid\u00e3o era quest\u00e3o de tempo. Surgiu, ent\u00e3o, a premente necessidade de resolver o problema da futura substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra escrava.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a Lei de Terras mostrou ser um instrumento bem-sucedido: ao ilegalizar as ocupa\u00e7\u00f5es e impor a obriga\u00e7\u00e3o de comprar a terra, impediu que libertos e imigrantes tivessem acesso, no futuro, a suas pr\u00f3prias parcelas. Consequentemente, esses contingentes estariam for\u00e7ados a fornecer for\u00e7a de trabalho barata e abundante aos latifundi\u00e1rios nos cafezais.<\/p>\n<p>O visconde de Abrantes exp\u00f4s essa l\u00f3gica sem meias-palavras: \u00abO pre\u00e7o deve ser elevado para que qualquer prolet\u00e1rio que s\u00f3 tenha a for\u00e7a de seu bra\u00e7o para trabalhar n\u00e3o se transforme imediatamente em propriet\u00e1rio comprando terras por pre\u00e7o vil. Ficando inibido de comprar terras, o trabalhador, por sua necessidade, tem que oferecer seu trabalho ao que tenha capitais para compr\u00e1-las e aproveit\u00e1-las\u2026\u00bb[34].<\/p>\n<p>Quando, de modo extremamente tardio, a decadente monarquia brasileira aboliu a escravid\u00e3o, n\u00e3o adotou nenhuma medida econ\u00f4mico-social que garantisse a inser\u00e7\u00e3o, em condi\u00e7\u00f5es dignas, dos ex-escravizados no mercado livre de trabalho.<\/p>\n<p>Em 1888, a massa de trabalhadores negros, finalmente \u00ablivre\u00bb, ficou entregue \u00e0 pr\u00f3pria sorte: sem emprego, terras, educa\u00e7\u00e3o, moradia, v\u00edtima de um racismo e de uma viol\u00eancia estatal brutais at\u00e9 hoje. Nem no Brasil nem no restante da Am\u00e9rica Latina houve nada semelhante \u00e0s oportunidades que o Homestead Act ofereceu nos EUA.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a queda da monarquia e a proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889, a opulenta oligarquia agr\u00e1ria controlava a economia e a pol\u00edtica no Brasil.<\/p>\n<p>Em suma, a Lei de Terras de 1850 \u2014t\u00e3o capitalista quanto o Homestead Act, mas significativamente menos \u00abdemocr\u00e1tica\u00bb, em sentido burgu\u00eas\u2014 fortaleceu o latif\u00fandio; aumentou o contingente de espoliados; perpetuou o imp\u00e9rio da viol\u00eancia estatal e privada contra os afrodescendentes, os sem-terra e os povos origin\u00e1rios no campo; condenou a agricultura brasileira a um prolongado atraso t\u00e9cnico; e, acima de tudo, relegou as pol\u00edticas de incentivo \u00e0 ind\u00fastria a um lugar marginal at\u00e9 bem avan\u00e7ado o s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>O Censo Agropecu\u00e1rio de 2017 revelou que mais de 75% das terras produtivas est\u00e3o concentradas em 15% do total de propriet\u00e1rios. Enquanto milh\u00f5es carecem de uma parcela para cultivar para si e para o pa\u00eds, cerca de 40% desses latif\u00fandios n\u00e3o s\u00e3o explorados. Outro dado que p\u00f5e em relevo a desigualdade no campo \u00e9 que apenas 1% das propriedades rurais cobre 48% do territ\u00f3rio agr\u00edcola, ao passo que os pequenos produtores, donos de at\u00e9 10 hectares, ocupam 2,3% do total. Sob a perspectiva da influ\u00eancia do racismo no problema da terra, por outro lado, \u00e9 escandaloso que 70% dos propriet\u00e1rios de 0,1 hectare sejam pessoas negras[35].<\/p>\n<p>Em boa medida, esse drama econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social \u00e9 heran\u00e7a da Lei de Terras de 1850 e de um tardio processo de aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o que, se por um lado esteve atravessado por tenazes lutas dos afro-brasileiros, por outro foi controlado e amortecido pelos \u00abde cima\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abA oligarquia com cheiro de bosta de vaca governa o pa\u00eds\u00bb<\/p>\n<p>A frase \u00e9 de Domingo Sarmiento. O intelectual e pol\u00edtico argentino se referia \u00e0 oligarquia latifundi\u00e1ria, tamb\u00e9m conhecida como a \u00aboligarquia conservadora\u00bb, que, nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas do s\u00e9culo XIX, se consolidou como setor hegem\u00f4nico da classe dominante argentina.<\/p>\n<p>Com efeito, no final do s\u00e9culo XIX e in\u00edcio do XX, essa oligarquia imp\u00f4s medidas que moldaram o Estado nacional e a sociedade para ajust\u00e1-los a um modelo econ\u00f4mico latifundi\u00e1rio e agroexportador, com depend\u00eancia umbilical das pot\u00eancias industriais[36]. Esse processo, por um lado, sentenciou o triunfo hist\u00f3rico da burguesia do Litoral, especialmente a de Buenos Aires, sobre o Interior, condenado \u00e0 marginalidade e ao atraso; por outro, cristalizou a inser\u00e7\u00e3o do pa\u00eds no mercado mundial como fornecedor de mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Esse per\u00edodo esteve atravessado por um brutal processo de acumula\u00e7\u00e3o de terras. Como amostra, apontemos a conhecida \u00abConquista do Deserto\u00bb (1878-1885), uma campanha militar liderada pelo general Julio Argentino Roca com o prop\u00f3sito de expandir a fronteira agropecu\u00e1ria em dire\u00e7\u00e3o ao Sul. A ofensiva significou um genoc\u00eddio dos povos origin\u00e1rios. Al\u00e9m disso, sup\u00f4s uma alt\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o da terra conquistada em poucas m\u00e3os. Estima-se que cerca de 41 milh\u00f5es de hectares foram repartidos entre 1.843 indiv\u00edduos. A Jos\u00e9 Mar\u00eda Mart\u00ednez de Hoz[37], ent\u00e3o presidente da Sociedade Rural \u2014 a mesma associa\u00e7\u00e3o patronal que segue representando os estancieiros \u2014, couberam cerca de 250.000 hectares; e o mesmo aconteceu com um punhado de sobrenomes de empres\u00e1rios, pol\u00edticos e militares[38].<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, as ondas de imigrantes europeus no final do s\u00e9culo XIX encontraram toda a terra j\u00e1 repartida; sem condi\u00e7\u00f5es de colonizar o Interior como ocorreu nos EUA, restou-lhes apenas a op\u00e7\u00e3o de arrendar a terra ou vender sua for\u00e7a de trabalho por um sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o das terras alcan\u00e7ou n\u00edveis obscenos. O censo agropecu\u00e1rio de 1914, realizado em pleno auge do \u00abceleiro do mundo\u00bb, revelou que 2% das explora\u00e7\u00f5es concentravam cerca de 50% das terras. O tamanho m\u00e9dio das propriedades agr\u00e1rias rondava os 360 hectares, ao passo que nos EUA, em contrapartida, essa m\u00e9dia n\u00e3o superava os 52 hectares[39].<\/p>\n<p>Os latifundi\u00e1rios assumiram o controle do pa\u00eds. O capitalismo argentino, fundado na estancia e n\u00e3o na f\u00e1brica, mostrou estupendos resultados macroecon\u00f4micos entre 1870 e 1914, a belle \u00e9poque saudada pelo senhor Milei e pela oligarquia nativa. De fato, tratou-se de um para\u00edso econ\u00f4mico\u2026 para eles.<\/p>\n<p>Estima-se que, entre 1864 e 1914, o PIB cresceu em m\u00e9dia 5% ao ano, dado significativo se considerarmos que entre 1869 e 1914 a popula\u00e7\u00e3o aumentou em m\u00e9dia 3,4% por ano[40]. At\u00e9 a Primeira Guerra Mundial, as exporta\u00e7\u00f5es argentinas representavam 30% do total das receitas latino-americanas por vendas ao exterior, embora o pa\u00eds abrigasse apenas 9,5% da popula\u00e7\u00e3o do subcontinente[41].<\/p>\n<p>Mas esse crescimento, a longo prazo, demonstrou ser inst\u00e1vel e um entrave para o desenvolvimento da ind\u00fastria. Descansava no volume de divisas que ingressava a reboque das exporta\u00e7\u00f5es de produtos agropecu\u00e1rios \u2014trigo, linha\u00e7a, centeio, cevada, milho, carne congelada e resfriada, l\u00e3, couros etc.\u2014, produtos prim\u00e1rios que oscilavam de acordo com as flutua\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis do mercado internacional.<\/p>\n<p>Carente de um ambicioso programa de desenvolvimento industrial, a Argentina foi incapaz de sustentar o ritmo de crescimento da idade dourada da \u00abciviliza\u00e7\u00e3o do couro\u00bb. O plano industrial de substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es tomaria forma apenas na d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Entre outros males socioecon\u00f4micos, a pesada heran\u00e7a do modelo agroexportador manifesta-se em que, hoje, 0,94% dos propriet\u00e1rios das maiores extens\u00f5es (em m\u00e9dia, com mais de 22.000 hectares) acapara 36% da terra[42].<\/p>\n<p>O distinto grau de desenvolvimento capitalista evidenciado nos EUA e na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o pode ser explicado, em ess\u00eancia, pela \u00abqualidade\u00bb da obra colonizadora de anglo-sax\u00f5es ou ib\u00e9ricos \u2014um ponto de vista que, convenhamos, delata uma mentalidade servil\u2014, mas sim pela determina\u00e7\u00e3o das burguesias nacionais, no s\u00e9culo XIX, em despojar-se das rela\u00e7\u00f5es pr\u00e9-capitalistas e destruir os escolhos para impor um projeto autenticamente independente no sentido pol\u00edtico e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Neste sentido, o Estado na Am\u00e9rica Latina \u2014seja sob o Imp\u00e9rio de Pedro II no Brasil ou sob a \u00abGera\u00e7\u00e3o de 80\u00bb na Argentina\u2014 operou como o instrumento jur\u00eddico e militar encarregado de assegurar que o capital nacional n\u00e3o fosse industrial, mas sim rentista. Diferentemente do Estado norte-americano, que utilizou a lei para \u00abdemocratizar\u00bb o solo e expandir o mercado interno, nossas institui\u00e7\u00f5es foram desenhadas para blindar o monop\u00f3lio da terra e garantir o fluxo de mat\u00e9rias-primas em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias hegem\u00f4nicas.<\/p>\n<p>O modelo estadunidense implicava, em termos capitalistas, povoar, ampliar e integrar o mercado dom\u00e9stico e abrir passagem para a ind\u00fastria. Nos EUA, ao custo de milhares de vidas, esse projeto triunfou. Na Am\u00e9rica Latina, em contrapartida, imp\u00f4s-se uma lumpemburguesia parasit\u00e1ria dos recursos naturais e, acima de tudo, dependente, satisfeita com seu papel de s\u00f3cia menor, intermedi\u00e1ria e gendarme das pot\u00eancias imperialistas.<\/p>\n<p>[1] A Espanha tamb\u00e9m recuperou o porto de Havana e Manila (Filipinas), que haviam sido ocupados pela Gr\u00e3-Bretanha.<br \/>\n[2] Isto corresponde a cerca de 23% do territ\u00f3rio atual dos EUA. A Fran\u00e7a havia recuperado este territ\u00f3rio das m\u00e3os espanholas por meio do Tratado de San Ildefonso (1800), selado no contexto das Guerras Napole\u00f4nicas, embora a transfer\u00eancia efetiva de soberania s\u00f3 tenha ocorrido pouco antes da venda em 1803.<br \/>\n[3] A doutrina do Destino Manifesto foi uma \u00abideia-for\u00e7a\u00bb que exprimia a cren\u00e7a de que os Estados Unidos da Am\u00e9rica estavam destinados pela Provid\u00eancia a expandir-se das costas do Atl\u00e2ntico at\u00e9 o Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>[4] Pe\u00f1a, Milc\u00edades. Historia del pueblo argentino. Buenos Aires: Emec\u00e9, 2012, p. 73.<br \/>\n[5] Ibidem.<br \/>\n[6] Moreno, Nahuel [1948]. Cuatro tesis sobre la colonizaci\u00f3n espa\u00f1ola y portuguesa en Am\u00e9rica. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.marxists.org\/espanol\/moreno\/obras\/01_nm.htm (consultado em 01\/12\/2023).<br \/>\n[7] Novack, George. Cinco siglos de revoluci\u00f3n: dos eras de revoluciones sociales. M\u00e9xico: Ediciones Un\u00edos, 2000, p. 85.<br \/>\n[8] Hobsbawm, Eric [1977]. A era das revolu\u00e7\u00f5es [1789-1848]. 32\u00aa. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013, p. 31.<\/p>\n<p>[9] Documento que reconhece os Estados Unidos como na\u00e7\u00e3o independente, oficializado em 4 de julho de 1776. A Constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, que estabeleceu as bases, tipo e estrutura do governo, foi promulgada em 17 de setembro de 1787.<br \/>\n[10] Discurso pronunciado em 21 de mar\u00e7o de 1861. Consultar: https:\/\/www.battlefields.org\/learn\/primary-sources\/cornerstone-speech<br \/>\n[11] Consultar: https:\/\/www.whitehousehistory.org\/the-american-colonization-society<br \/>\n[12] Consultar: https:\/\/www.archives.gov\/exhibits\/american_originals_iv\/sections\/preliminary_emancipation_proclamation.html#<br \/>\n[13] Os chamados estados fronteiri\u00e7os (border states): Delaware, Kentucky, Maryland, Missouri e Virg\u00ednia Ocidental.<br \/>\n[14] Consultar: https:\/\/www.archives.gov\/exhibits\/featured-documents\/emancipation-proclamation<br \/>\n[15] Vale ressaltar, \u00e0 luz da espantosa letalidade da Guerra Civil dos EUA, que a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o paraguaia morta ou desaparecida ap\u00f3s a Guerra Guasu [Guerra do Paraguai] situou-se entre 60% e 69% do total de habitantes.<br \/>\n[16] A Guerra Civil for\u00e7ou outras reformas legais. A D\u00e9cima Quarta Emenda, proposta em 1866 e ratificada em 1868, sentenciou o direito \u00e0 cidadania para qualquer pessoa nascida nos EUA, garantindo-lhe \u00abprote\u00e7\u00e3o legal igualit\u00e1ria\u00bb. A D\u00e9cima Quinta Emenda da Constitui\u00e7\u00e3o, em 1870, outorgou aos homens afro-americanos o direito ao voto. No entanto, a maior parte deles n\u00e3o p\u00f4de exerc\u00ea-lo devido a medidas como as taxas de voto [eliminadas apenas em 1964] ou a imposi\u00e7\u00e3o de testes de alfabetiza\u00e7\u00e3o.<br \/>\n[17] Segundo dados do economista brit\u00e2nico Angus Maddison (1926-2010), especialista em hist\u00f3ria macroecon\u00f4mica, nesse mesmo ano a economia dos EUA correspondia a 18% do PIB mundial. O PIB do conjunto dos pa\u00edses latino-americanos representava apenas 4% da economia mundial e cerca de 23% da estadunidense. Consultar: https:\/\/www.rug.nl\/ggdc\/<br \/>\n[18] Pode-se dizer que os EUA iniciam um modo de inger\u00eancia mais aberto e agressivo na Am\u00e9rica Latina a partir da interven\u00e7\u00e3o de Washington na guerra hispano-americana de 1898, que p\u00f4s fim ao dom\u00ednio espanhol sobre Cuba e inaugurou a tutela imperialista estadunidense sobre a ilha.<br \/>\n[19] Estima-se que 85% da m\u00e3o de obra da Central Pacific Railroad, companhia respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do trecho ocidental da linha transcontinental, foi composta por imigrantes chineses.<br \/>\n[20] Para os nacionalistas adeptos ao mito do \u00abParaguai-pot\u00eancia\u00bb vale recordar, a t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, que a ferrovia paraguaia atingiu 72 quil\u00f4metros de trilhos em 1864. Em 1870, o Imp\u00e9rio do Brasil contava com cerca de 745 quil\u00f4metros de trilhos, e a Argentina, com 722.<br \/>\n[21] Consultar: https:\/\/www.loc.gov\/classroom-materials\/united-states-history-primary-source-timeline\/rise-of-industrial-america-1876-1900\/railroads-in-late-19th-century\/<br \/>\n[22] Em 1880, a ferrovia transcontinental transportava mercadorias no valor de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares anualmente. Para os passageiros individuais, o custo da viagem de costa a costa reduziu-se em 85%.<br \/>\n[23] Consultar: https:\/\/www.federalreservehistory.org\/time-period\/before-the-fed<br \/>\n[24] Consultar: https:\/\/www.archives.gov\/milestone-documents\/homestead-act<br \/>\n[25] Consultar: https:\/\/www.nps.gov\/home\/learn\/historyculture\/abouthomesteadactlaw.htm<br \/>\n[26] Especialmente no Manufacturing Belt [Cintur\u00e3o da Manufatura], no Nordeste e Meio-Oeste. Devido ao decl\u00ednio da ind\u00fastria, essa regi\u00e3o \u00e9 conhecida, desde a d\u00e9cada de 1970, como Rust Belt [Cintur\u00e3o da Ferrugem].<br \/>\n[27] Em 1950, a popula\u00e7\u00e3o urbana no Brasil representava 36% do total.<br \/>\n[28] North, D. (1969). Una nueva historia econ\u00f3mica. Crecimiento y bienestar en el pasado de los Estados Unidos. Madrid: Tecnos, p. 43.<br \/>\n[29] Consultar: http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/LEIS\/L0601-1850.htm<br \/>\n[30] Consultar: https:\/\/www12.senado.leg.br\/noticias\/especiais\/arquivo-s\/ha-170-anos-lei-de-terras-desprezou-camponeses-e-oficializou-apoio-do-brasil-aos-latifundios#:~:text=Em%2018%20de%20setembro%20de,e%20n%C3%A3o%20em%20pequenas%20propriedades<br \/>\n[31] Idem.<br \/>\n[32] Idem.<br \/>\n[33] Idem.<br \/>\n[34] Idem.<br \/>\n[35] Consultar: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/12\/15\/pretos-e-pardos-tem-menos-terra-e-estao-mais-vulneraveis-a-inseguranca-fundiaria<br \/>\n[36] Um modelo de acumula\u00e7\u00e3o com pontos em comum com o do Brasil, mas com muito menos peso da escravid\u00e3o, que na Argentina foi abolida em 1853.<br \/>\n[37] Bisav\u00f4 do Mart\u00ednez de Hoz que foi ministro da Economia da \u00faltima ditadura militar.<br \/>\n[38] Consultar: https:\/\/www.pagina12.com.ar\/diario\/contratapa\/13-145745-2010-05-16.html<br \/>\n[39] Consultar: https:\/\/www.infobae.com\/opinion\/2019\/07\/28\/argentina-canada-y-australia-tres-paises-con-distinto-destino\/<br \/>\n[40] Lenz, M. H. (2012). O per\u00edodo de intenso crescimento econ\u00f4mico argentino de 1870 a 1930: uma discuss\u00e3o. In: Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica &amp; Hist\u00f3ria de Empresas, v. 6, n. 2, 19 jul. 2012, p. 132.<br \/>\n[41] Idem, p. 131.<br \/>\n[42] Dados da Oxfam. Consultar: https:\/\/www.oxfam.org.br\/publicacao\/desterrados-tierra-poder-y-desigualdad-en-america-latina\/<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por que os Estados Unidos se consolidaram como pot\u00eancia industrial no in\u00edcio do s\u00e9culo XX enquanto a Am\u00e9rica Latina permanecia estagnada em uma estrutura dependente e semicolonial? 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