O retorno ao autoritarismo fujimorista no Peru

Artigo do Partido Socialista dos Trabalhadores (Peru), uma organização trotskista com mais de 50 anos de existência, atualmente sem filiação internacional.

No momento em que este artigo foi escrito, já estava claro que o segundo turno das votações favorecia Keiko Fujimori. Os resultados, com uma diferença de apenas 0,2% em cerca de 20 milhões de votos, refletem um alto grau de polarização, com cada lado votando contra o que considerava a pior versão do adversário. No Peru, o voto anti-Keiko predominou, e foram os votos dos peruanos no exterior — onde as suspeitas de manipulação eleitoral eram comuns — que, em última análise, inclinaram a balança a favor do fujimorismo, o pior cenário previsto pela maioria da população peruana.

A eleição presidencial é complementada pelas eleições para a Câmara dos Deputados e para o Senado, nos quais o fujimorismo obteve 41 das 130 cadeiras na Câmara dos Deputados e 22 das 60 cadeiras no Senado, eleitos por apenas seis grupos políticos. Com mais de um terço das cadeiras do Senado conquistadas pelo fujimorismo, o partido está em posição de bloquear qualquer tentativa de impeachment, o que garante sua longevidade ao longo do mandato de cinco anos, ao contrário da volatilidade que caracterizou os oito governos que o precederam nos últimos dez anos, em meio a uma profunda crise política.

Contudo, a relativa estabilidade que o governo Fujimori terá devido ao seu peso no Senado não será, por si só, garantia da ausência de crises políticas, uma vez que o descontentamento social não desaparecerá por magia e, além disso, existe uma oposição potencialmente forte na Câmara dos Deputados, com capacidade para censurar ministros ou destituir altas autoridades, se assim o desejar.

O novo governo

Este é um dos principais problemas que o novo governo tentará resolver e, certamente, aplicará sua “experiência” em promover deserções políticas, como durante a ditadura de Fujimori pai e, atualmente, por sua filha no Congresso. Também promoverá acordos e transações nos bastidores, tanto econômicos quanto políticos, para garantir a cooperação de blocos parlamentares, como conseguiu com o bloco da família “extremista” Cerrón.

Muitos nutrem a esperança de que o fujimorismo reflita sobre a monstruosidade de suas políticas autoritárias e forme um governo democrático e conciliador, que recue em suas posições de monopolizar as instituições estatais, nas leis “pró-crime”, nas leis de anistia ou na impunidade para militares e policiais culpados de assassinatos e violações dos direitos humanos, e que também recue em seu objetivo de reinstaurar a “justiça militar” para militares ou policiais, mesmo por crimes comuns, como os de Colcabamba e Manchay, ou mesmo de proteger Dina Boluarte pelos assassinatos de 2022 e 2023.

A mensagem de unidade nacional pode até ser transmitida, mas mais como parte de propaganda vazia ou de um jogo político para obter alguma legitimidade e não se tornar, repentinamente, a partir de 28 de julho, Dina Boluarte II.

Os fatos mencionados acima não descrevem um governo centrado na democracia, mas sim um governo que se sente ameaçado e se preparou para o confronto, um governo que espera ser repudiado e confrontado por amplos setores populares em todo o país, não apenas pelas demandas por justiça e democráticas que lhes foram negadas, mas também pelas condições econômicas que atingem importantes setores sociais, produto das desigualdades geradas pelo plano econômico, bem como pelas ações de extorsão e de assassinos de aluguel, e pelos novos desastres climáticos sem medidas de mitigação.

Keiko Fujimori oferecerá outras ilusões em troca, a julgar pelos anúncios de sua campanha. Já se sabe que ela acredita poder compensar as violações dos direitos democráticos com uma longa lista de projetos de obras públicas e outras promessas. Mas essas promessas, de cumprimento bastante duvidoso, serão a cenoura usada para disfarçar o porrete com o qual tentará reprimir a mobilização popular.

No clube nefasto de Donald Trump

Assim como outros governos de direita na região, uma das prioridades do governo Fujimori será aprofundar sua política de subserviência à estratégia do governo dos EUA no hemisfério, com consequências desastrosas para o país. Uma prévia dessa política já foi vista no pagamento descarado de US$ 3,5 bilhões pela compra de aviões de guerra fabricados nos EUA, sacrificando recursos de programas sociais, como o Beca 18, e de iniciativas de prevenção de desastres naturais.

Graças ao fujimorismo, o Peru fará parte do “Escudo das Américas”, o clube de traidores formado por Donald Trump com governos de mentalidade semelhante na América Latina, assumindo cumplicidade na política intervencionista contra a soberania dos povos do continente e nos ataques genocidas, como os desencadeados pelo imperialismo no Oriente Médio, com o governo sionista de Israel.

Sabemos que essa cumplicidade se traduzirá em um custo para as massas trabalhadoras, na forma de compras impostas, como os aviões citados, de inflação, ou de saque da riqueza nacional, além de maior presença militar do imperialismo no país.

Os desafios das organizações operárias e populares

As ameaças que o governo Fujimori representa para as massas trabalhadoras são evidentes. Em resposta, é necessário avançar na organização e na unidade, fortalecendo a coordenação e a solidariedade de classe, como parte de uma estratégia que inclua a resolução dos problemas de liderança geral e política.

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