A guerra da Ucrânia numa nova fase: a possibilidade real de derrotar Putin

Depois do vexaminoso desfile de 9 de maio, em que Vladimir Putin precisou implorar a Donald Trump que negociasse com o governo ucraniano garantias de segurança para a comemoração do “Dia da Vitória” em Moscou, tornou-se mais difícil esconder o desgaste político, militar e econômico do regime de Putin. Ainda mais humilhante foi a resposta oficial do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, de que “autorizava” a realização das comemorações do 9 de maio na Rússia.

A simbologia é poderosa: Desde que Putin chegou ao poder, vem instrumentalizando as comemorações do dia da grande vitória dos povos da URSS contra Hitler como um dia de “sua” vitória. Pois o presidente russo, que em 2022 sonhava conquistar a capital ucraniana Kiev em poucos dias, hoje teme ataques em plena Praça Vermelha, em Moscou, a 500km do front, durante sua principal data “patriótica”.

Uma nova situação na guerra

Terminada a trégua pedida por Putin, em 14 de maio, a Rússia realizou um grande ataque a cidades ucranianas com drones e mísseis, atingindo áreas residenciais e matando civis, inclusive crianças. Somente em Kiev, foram 24 civis mortos. Incapaz de alcançar uma vitória decisiva no front, o regime de Putin recorre ao terror contra a população civil. Mas a imediata resposta ucraniana também reflete a mudança de cenário: refinarias, aeroportos e instalações militares russas vêm sendo atingidos quase diariamente a centenas ou milhares de quilômetros da linha de frente. O ataque ucraniano contra Riazan, localizada a mais de 1.500 km da linha de frente, foi um ato de justa represália. Uma grande refinaria de petróleo está em chamas, assim como um edifício simbolicamente pintado com as cores da bandeira tricolor russa. Sobre a cidade caiu uma chuva negra de resíduos de petróleo. Além disso, foram atacados navios militares no mar Cáspio e um aeródromo militar em Yeisk. Isso em um único dia. Na sequência, o ataque ucraniano a Moscou, neste último dia 17, foi o mais massivo desde o início da guerra, com 120 drones, segundo a Prefeitura de Moscou. A guerra já não está confinada ao território ucraniano. O território russo tornou-se vulnerável. Putin já não consegue esconder a guerra de sua própria população, que agora a vê pela janela de suas casas.

Tampouco é possível esconder os números da economia russa. O PIB do país caiu 0,3% no primeiro trimestre de 2026. Ao mesmo tempo, o Ministério Russo do Desenvolvimento Econômico revisou drasticamente para baixo suas previsões de crescimento econômico para 2026, de 1,3% para 0,4%. Trata-se de um quadro claramente recessivo, mesmo com a gigante injeção diária dos fundos de reserva russos à economia de guerra e a subida dos preços do petróleo no mercado internacional. O período anterior de crescimento econômico, que ficou conhecido como “keynesianismo de guerra” pelos imensos investimentos estatais na indústria de guerra (a Rússia tem hoje o maior orçamento militar do mundo em proporção do PIB), parece ter ficado definitivamente para trás. Mesmo com elementos de recessão, a inflação segue alta, os juros são os maiores do mundo, caem os investimentos e o consumo das famílias e, segundo a revista Forbes, cerca de 209 mil empresas de pequeno e médio porte encerraram atividades apenas nestes primeiros três meses de 2026. O déficit orçamentário disparou, atingindo 5,88 trilhões de rublos (2,5% do PIB anual) nos primeiros 4 meses deste ano, sendo que a previsão era de um déficit total de 3,77 trilhões de rublos para todo o ano de 2026.

Ao mesmo tempo, o governo Putin intensifica censura, bloqueios de internet e repressão interna, aumentando a irritação popular. Essas medidas afetam transporte, comércio, bancos, logística e o cotidiano da população, ampliando o desgaste. A queda de popularidade de Putin vem se intensificando nas últimas semanas, levando o instituto estatal de estatística a inclusive mudar sua metodologia de pesquisa, visando aumentar artificialmente o índice de popularidade de Putin. Agora, se bate à porta de casa em casa e se intima as pessoas a responderem se apoiam Putin ou não. É assim que, sob uma ditadura brutal, os índices oficiais de apoio ao governo Putin seguem altos…

Mas é no campo militar que o custo da aventura imperial de Putin aparece de forma mais brutal. Segundo levantamentos publicados por Meduza, Mediazona e BBC russa, as baixas russas até final de 2025 alcançam 352 mil soldados mortos confirmados, com nome e sobrenome. Trata-se da estimativa independente mais sólida já publicada até agora, baseada em processos de herança, compensações financeiras a famílias e listas nominais de mortos por região. Se considerarmos uma média rebaixada de dois soldados feridos graves para cada morto, o custo humano russo da aventura imperial de Putin ultrapassa 1 milhão de soldados. Quanto ao ano de 2026, o Comandante das Forças de Sistemas Não-Tripulados (drones) da Ucrânia Robert Brodvi afirmou à BBC agora em maio que “Temos ordens de matar 30 mil soldados russos por mês. E já são quatro meses seguidos em que temos superado nossas metas”. Putin, ao mesmo tempo que comete um genocídio contra o povo ucraniano, literalmente envia seus próprios soldados ao abatedouro. A guerra transformou-se em um gigantesco moedor humano que consome principalmente jovens das regiões mais pobres e periféricas da Rússia.

O presidente russo aparece cada vez mais distante da população, em bunkers, cercado por fortes esquemas de segurança. Ao mesmo tempo, circulam rumores na imprensa sobre o medo de Putin diante da possibilidade de atentados, conspirações internas ou até de um golpe palaciano.

A Ucrânia resiste

Tudo isso desmonta a narrativa triunfalista difundida pelo Kremlin e repetida por aquelas correntes stalinistas que apoiam Putin. A Ucrânia não entrou em colapso. Pelo contrário: construiu praticamente do zero uma indústria de drones, expandiu sua capacidade de produção militar e mostrou enorme capacidade de resistência popular. O desenvolvimento de drones de longo alcance pela Ucrânia lhe permite atacar a retaguarda russa profunda. Refinarias, portos, aeroportos, centros logísticos e instalações militares russas vêm sendo atingidos a centenas ou milhares de quilômetros da linha de frente, coisa que antes não era possível, pois os imperialismos americano e europeu proibiam a Ucrânia de usar suas armas de longo alcance em solo russo.

O desenvolvimento da tecnologia de drones tornou impossível, no momento atual, o acúmulo de tropas e armamento pesado próximo à fronteira ucraniana. Há uma faixa de mais de 10 km chamada de “zona cinzenta” na linha de frente, infestada por enxames de drones que matam qualquer um que se aproxime, tornando muito difícil à Rússia romper as linhas de defesa ucranianas, o que só pode ser feito ao custo de imensas baixas das Forças Armadas russas. Todas as ações nesta faixa se dão em pequenos grupos de assalto, às vezes de apenas três soldados, o que torna a vantagem russa em tanques, artilharia, mísseis, aviação e inclusive em infantaria, de pouca utilidade. Sobra a Putin usar seus mísseis contra as cidades ucranianas na retaguarda, como medida de terror contra a população civil, mas sem conquistar resultados militares concretos no front.

Isso não significa que a derrota de Putin esteja garantida, mas que é sim possível, e que o resultado da guerra segue em aberto. A Rússia ainda possui enorme capacidade militar, recursos econômicos, arsenal nuclear e um aparato repressivo poderoso. E conta com a cumplicidade de Donald Trump. Mas já não é possível sustentar a imagem de uma Rússia invencível. O povo ucraniano demonstrou que um império pode ser detido. Demonstrou que resistência popular, organização militar e solidariedade internacional podem alterar o curso da história. A guerra está longe de ser a demonstração de força imaginada pelo Kremlin. Qualquer semelhança com a situação de Trump no Irã não é mera coincidência.

Aliás, Trump ao assumir também dizia que a Ucrânia não poderia resistir à Rússia e que o melhor seria entregar seus territórios e assinar uma paz nos termos de Putin. Não fez nada mais que repetir seu antecessor Joe Biden que, ante a invasão russa da Ucrânia, se limitou a oferecer ao presidente Zelensky um avião para sua fuga…

Nenhuma confiança em Zelensky

Ao mesmo tempo, seria um erro fechar os olhos para o papel do próprio governo Zelensky. Zelensky governa para a grande burguesia ucraniana e para os imperialismos americano e europeus. Nisso, em nada se diferenncia de outros governos de países semicoloniais. Mas tem uma particularidade: tem que fazê-lo sobre um país conflagrado por uma profunda revolução desde 2013, onde seu povo, mesmo com toda a destruição, dor e mortes causada por Putin, não aceita a capitulação e a entrega de seus territórios. Portanto, Zelensky tem pouca margem de manobra e não pode simplemente capitular. É um governo envolto em escândalos de corrupção, que aplica medidas de ajuste do FMI que atingem trabalhadores e enfraquecem o moral social necessário para sustentar uma guerra longa, mas que ao mesmo tempo se vê obrigado a combater a agressão russa. A defesa da Ucrânia nesta guerra e de seu direito à autodeterminação, o reconhecimento de que se trata de uma guerra justa de libertação nacional de uma nação oprimida há séculos, não pode significar nenhum apoio ao governo ucraniano que, por sua natureza capitalista, não pode ser consequente no combate a Putin. Não pode expropriar a economia e colocá-la à serviço da defesa nacional, não consegue sequer expropriar o capital russo no país. Ao invés de construir uma indústria de guerra independente na Ucrânia, aprofunda sua dependência em relação aos EUA e União Europeia.

Todo apoio à resistência ucraniana!

Ainda assim, a natureza do conflito segue clara. Trata-se de uma guerra de agressão, contrarrevolucionária, conduzida pela Rússia contra o direito do povo ucraniano de existir como nação independente, que gerou uma verdadeira guerra de libertação nacional da Ucrânia contra o agressor. A resistência ucraniana possui caráter profundamente popular, que vai muito além do atual governo de Kiev. A Ucrânia mostrou ao mundo que um povo pode resistir a um império aparentemente muito mais forte. Que pode derrotar a ditadura genocida de Putin. E que justamente por isso necessita de solidariedade internacional concreta — armas, alimentos, medicamentos, equipamentos e ajuda material. Isso é necessário para conquistar uma derrota estratégica do Kremlin. Esse cenário já se havia colocado em 2022, quando as tropas russas tiveram que recuar das aforas de Kiev, retirar-se de Kharkov e Kherson. Mas então, devido à falta de armamento pesado, entregue a conta-gotas pelo imperialismo, a Ucrânia não pôde expulsar totalmente as tropas russas do conjunto de seu território, pondo fim à guerra. Foi essa ação cínica dos imperialismos americano e europeus que permitiu a Putin reorganizar suas tropas e voltar à ofensiva em 2023. Hoje, torna-se possível novamente vislumbrar algo que a muitos parecia impossível: uma derrota política e militar de Putin.

Além disso, Putin contava com que o presidente americano pressionasse a Ucrânia a entregar na mesa de negociações o que Putin não consegue conquistar em combate. O próprio porta-voz de Putin, Dmitri Peskov, afirmou em coletiva à imprensa logo após os recentes ataques ucranianos a cidades russas que “Contamos com que nossos colegas americanos prossigam com seus esforços de paz”. Mas a resistência ucraniana por um lado, e o enfraquecimento internacional de Trump devido à guerra com o Irã por outro, vêm impedindo que este plano se concretize.

Armas para a Ucrânia!

Ao contrário das previsões derrotistas feitas desde 2022 por parte da ultra-direita europeia, da “esquerda” pró-Kremlin e dos supostos “realistas” da imprensa ocidental, a Ucrânia não caiu. O povo ucraniano resiste.E essa resistência vem cobrando um preço gigantesco da Rússia. Quatro anos após o início da invasão em larga escala, a Rússia continua sem poder alcançar nenhum de seus objetivos militares. A Ucrânia não foi submetida, seu governo não caiu, a identidade nacional ucraniana se fortaleceu e a própria capacidade militar de Kiev cresceu enormemente. E o principal, a disposição do povo ucraniano em libertar seu país não arrefeceu. O resultado é uma guerra prolongada que vem corroendo profundamente as bases do ultrarreacionário regime de Putin.

Se a possibilidade de derrota de Putin desmascara as correntes stalinistas, que sempre foram contrárias à independência da Ucrânia, desmascara também aqueles que se dizem “trotskistas” sem sê-lo. Ditos setores, apesar de não apoiarem explicitamente Putin, se recusam a defender “Armas para a Ucrânia” e “Pela derrota de Putin na guerra”, escondendo-se sob frases vazias de “Pela paz”, “Cessar-fogo imediato”, “Nem Putin, nem OTAN”, “Unir os trabalhadores contra os capitalistas de ambos países” ou “Pelo socialismo”, como se alguma dessas consignas fosse realizável sem antes derrotar a agressão contrarrevolucionária de Putin. A luta por uma Ucrânia socialista e dos trabalhadores se dá colada à batalha por uma Ucrânia livre, independente, soberana e democrática; e não em oposição a ela. É uma só luta, essa é a essência da Teoria da Revolução Permanente de Trotski. E uma Ucrânia livre, independente, soberana e democrática só é factível com o povo em armas. Sem armas, a Ucrânia será escravizada por Putin ou pelos imperialismos europeus e americano. É uma antiga tradição exigir inclusive de governos imperialistas armas para se combater o agressor. Para combater o fascista Franco na Guerra Civil Espanhola, os revolucionários exigiram armas à França imperialista. Para que a URSS pudesse combater o nazismo na 2a Guerra Mundial, os trabalhadores de todo o mundo exigiam que os EUA lhe entregasse armas, como foi feito, aliás, o que ajudou a derrotar o nazismo. As correntes ditas “trotskistas” que igualam agressor e agredido na guerra, recusando-se a defender “Armas para a Ucrânia!”, além de não terem compreendido nada do pensamento de Trotski, não fazem mais que cumprir o triste papel de cobertura pela esquerda da agressão russa.

De nossa parte, sem cair nem em triunfalismo, nem em derrotismo, reafirmamos o que vimos dizendo desde o início desta guerra: a derrota de Putin é possível, assim como a derrota de Trump no Oriente Médio. E teria enorme significado para todos os povos que lutam por liberdade, independência e contra a opressão, sejam os povos oprimidos no interior da Rússia ou em sua área de influência no Cáucaso, Europa Oriental, Oriente Médio e Ásia Central. A derrubada da ditadura assassina de Assad na Síria ano passado e a recente derrota de Orbán na Hungria já são sintomas da falência do regime de Putin. E motivo de comemoração para todos os povos oprimidos do mundo.

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