Um ano sem Zezoca

Por Alicia Sagra

Zezoca está intimamente ligado à minha trajetória militante. Foi assim desde minha primeira experiência internacional, quando ministramos juntos os cursos na Escola Teórica, organizada pela Convergência Socialista (CS), em fevereiro de 1983. Depois, em 1992, estivemos, com Bernardo, no primeiro Secretariado Internacional, quando iniciamos o processo de reconstrução da LIT.

Compartilhamos, na mesma época, a secretaria de formação da CS. Fomos, com Cecília Toledo, organizadores dos seminários da LIT sobre a Opressão da Mulher e elaboramos as conclusões do último seminário.

Fizemos parte do Conselho Editorial da revista Marxismo Vivo e sofremos, ao lado de Martín Hernández, Ronald León, Marcos Margarido e Daniel Ruiz, a expulsão desse Conselho decretada pela direção da LIT.

Com Margarido, fundamos o Centro de Formação Marxista David Riazanov, que mantivemos em funcionamento por 10 anos.

Juntamente com os camaradas que integraram, em diferentes momentos, o grupo de Opinião do BDI 10, a TIBA e a FDR, desenvolvemos o que ele considerou a principal batalha de sua vida: a luta contra a degeneração burocrática da direção da LIT-QI e do PSTU.

E, finalmente, com Bernardo, tivemos o triste privilégio de acompanhá-lo nos últimos meses de sua vida.

A participação nessas tarefas revolucionárias construiu fortes laços de camaradagem e amizade, que se expressavam em passeios, nas festas de fim de ano, ao lado de sua companheira Rita e amigos como Alex, Bernardo, Raquel, Rose, Martín e Sandra.

Em 7 de maio de 2025, esse querido amigo nos deixou. Ao relembrar o momento de sua partida, volta o sentimento de tristeza por não termos podido nos despedir dele com a grande cerimônia que ele merecia, como fizemos com Didi, Cilinha e Américo. Atendemos ao seu pedido expresso. Respeitamos sua vontade, com a qual concordamos, mas não pudemos explicar o motivo dessa decisão.

Naquele momento, não pudemos dizer que Zezoca não queria ser homenageado por seus perseguidores políticos; não queria ser usado nessa hipocrisia. De qualquer forma, a hipocrisia apareceu e tivemos que nos calar ao ouvirmos e lermos os elogios inflamados que as direções do PSTU e da LIT lhe faziam após sua morte: “indispensável”, “o quadro mais inteligente depois de Moreno”; quando sabíamos que aqueles que assim falavam eram os mesmos que não só o haviam perseguido em vida, mas também continuavam a persegui-lo após sua morte. Aqueles que faziam esses elogios voltaram a ratificar a proibição de lançar seu site, tentando, assim, impedir sua última vontade: deixar para as novas gerações de revolucionários suas elaborações e conclusões de 50 anos de militância.

Não aceitamos essa imposição burocrática, que nada tinha a ver com o centralismo democrático defendido por Lenin. Sob a responsabilidade de Bernardo e Martín, seu site, Perspectiva Marxista, foi publicado e, como ele desejava, está a serviço de todos os revolucionários, especialmente da juventude.

Ao completar um ano de sua morte, queremos relembrar Zezoca em seus diferentes aspectos, dizendo tudo o que não pudemos dizer quando ele nos deixou.

Como estudioso e elaborador marxista

Desde muito jovem, sentiu-se atraído pelo marxismo, pelo seu estudo e pela atividade de formar novos camaradas. Suas contribuições políticas e teórico-programáticas tiveram grande importância no processo de reconstrução da LIT-QI.

Foi nosso maior especialista no Oriente Médio e um grande defensor da causa palestina. Suas reflexões sobre o tema estão expressas na Marxismo Vivo, na Correio Internacional e na enorme quantidade de cursos e palestras que ministrou. Como outros revolucionários de origem judaica, sentia quase uma obrigação de repetir e divulgar que sionismo não é sinônimo de judaísmo; sionismo é sinônimo de nazifascismo, e isso ele fez até seus últimos momentos de vida.

Mas esse não foi seu único tema; ele estudou e escreveu sobre o mundo árabe, a classe trabalhadora e a revolução brasileira, Engels, reforma e revolução, e materialismo histórico (foi um dos organizadores do seminário da LIT sobre o tema).

Seu livro Cidadania e Classe teve grande relevância na formação de nossos militantes quando, após a restauração do capitalismo e a queda dos regimes stalinistas, o reformismo e o pós-modernismo substituíram os conceitos marxistas de classe por definições como “cidadania” e “democracia universal”.

Seu documento sobre moral revolucionária, aprovado em 2008 pelo Congresso Mundial da LIT-QI e publicado no site da Internacional, teve especial importância para a formação de nossa corrente. Esse documento, elaborado com base nas concepções de Marx, Lenin, Trotsky e Moreno, afirma que o problema não está na existência de questões morais no partido, mas na forma como a direção age diante delas. Aborda os problemas que tivemos, a maioria deles relacionados ao machismo, e define categoricamente que essas violações da moral revolucionária não podem ser aceitas, que todos esses casos devem ser punidos, que as punições aos dirigentes devem ser muito mais rigorosas e que nunca se deve proteger o dirigente que cometa atos dessa natureza. Isso nos diferencia da maioria das correntes trotskistas que agiam de maneira contrária.

Ironicamente, o autor desse documento foi punido por se recusar a esconder da base o ato machista cometido por um dos principais dirigentes da LIT, pelo qual ele havia recebido apenas uma punição simbólica.

Como construtor da Internacional

Zezoca destacou-se como elaborador e formador, mas sua militância não foi apenas intelectual. Ele foi um construtor de partido e cumpriu essa tarefa não apenas no partido brasileiro, mas também na Internacional.

Assim que iniciamos o trabalho de reconstrução da LIT-QI, ele viajou por vários meses à Europa para ajudar na construção dos partidos espanhol e português.

Foi o primeiro dirigente de nossa corrente a viajar para o Oriente Médio, para a Síria e o Líbano, e a ele se devem os primeiros contatos que estabelecemos nessa região.

Viajou, várias vezes, para diferentes países das Américas do Sul e Central. Foi ele quem iniciou e concretizou a relação com a corrente italiana que mais tarde passou a ser seção da LIT-QI.

De 1992 a 2024, participou da direção da LIT-QI. De 2018 a 2020, passou a fazer parte da minoria crítica dessa direção. Pode-se dizer, então, que, até aquele momento, ele faz parte dos acertos e também dos erros que a LIT cometeu nesses quase 30 anos desde sua reconstrução.

Zezoca não era perfeito, a perfeição não existe. Ele tinha pontos fortes e fracos. Ele estava muito consciente de suas fraquezas e, seguindo a tradição morenista, as reconhecia abertamente. Por exemplo, sempre dizia que era um péssimo organizador, por isso procurava formar equipes com companheiros que tivessem outras características e era muito bom nesse trabalho em equipe; era um prazer trabalhar com ele.

O que não deixa dúvidas é que, nessa relação entre pontos fortes e fracos, os determinantes foram os pontos fortes. Por isso, com sua partida, nossa coluna de quadros sofreu um enfraquecimento enorme.

Como ser humano

Nahuel Moreno sempre dizia que nossa corrente havia originado um tipo humano especial, pessoas felizes com o que faziam, fraternas, solidárias. Ele explicava isso a partir da ideia de que a atividade revolucionária era uma fonte de desalienação.

Evidentemente, as grandes crises partidárias provocam efeitos contrários a esse processo de desalienação. Mas Zezoca é um dos melhores exemplos desse tipo humano de que Moreno falava.

Não por acaso, todos que trabalharam e compartilharam momentos da vida com ele lembram-no como uma pessoa alegre, afável, solidária e muito humilde. Era apaixonado por futebol e, quando jovem, foi um grande jogador de futsal; gostava de teatro, cinema e samba. Adorava receber amigos e encontrar-se com os velhos camaradas.

Suas peculiaridades eram motivo de muitas brincadeiras. Zezoca tinha a capacidade de rir de si mesmo. Muitos se lembram das histórias que ele contava sobre isso, como aquela em que, na prisão [durante a ditadura militar], confundiu óleo com detergente e não entendia por que os outros presos o olhavam com espanto, até perceber a grande quantidade de espuma que saía da frigideira onde fazia ovos fritos.

Uma expressão comum entre aqueles que o conheciam era: “É impossível brigar com o Zezoca”. Era verdade, mas essa afabilidade, característica de sua personalidade, de forma alguma significava que ele não defendesse suas ideias.

Sua última batalha

Zezoca foi um dos elaboradores dos documentos com os quais se enfrentou a batalha contra o processo de degeneração burocrática das direções da LIT e do PSTU.

Foi, ao lado de Martín Hernández, um dos mais perseguidos por essa direção. Foi punido pela direção da LIT-QI, desrespeitado pela direção do PSTU, que ignorou sua oferta de colaborar com o partido na elaboração e na formação; que não o integrou, apesar de seu pedido, na construção dos seminários teóricos e que negou seu pedido de autorização para publicar um site com os textos que ele queria deixar como legado, sabendo que lhe restava pouco tempo de vida.

Zezoca sofreu com tudo isso. Especialmente com o que recebia dos principais dirigentes do PSTU, a quem considerou, por muito tempo, seus amigos e amigas. Mas eles não o quebraram. A decepção transformou-se em raiva, em disposição para a luta. Nunca perdeu a confiança na classe trabalhadora, na revolução socialista, na necessidade e na possibilidade de construir um novo partido revolucionário no Brasil e no mundo.

Se estivesse vivo, ele seria um dos expulsos e estaria na linha de frente da construção do MPR e do CIR.
Com toda a justiça, ele deve ser considerado um dos fundadores do novo partido revolucionário no Brasil e da nova Internacional, inspirada em Lenin, Trotsky e Moreno, que aspiramos construir.

Descanse em paz, querido camarada, sua batalha continua.

https://mpr–nacional.org/especial–zezoca/

 

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